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Relembro o dia em que a ideia deste livro nasceu. Era o dia de 88º aniversário do Avô, faz hoje exactamente seis anos. Já era noite quando passamos pela casa dele para lhe dar o presente de aniversário. Ele já estava deitado na cama, a ler a Bíblia como habitualmente o fazia, iluminado pela pequena luz do candeeiro que ao seu lado desafiava a escuridão do quarto. Deitamo-nos também debaixo da luz, um de cada lado do Avô, suficientemente próximos para o sentir. Entregamos o presente e o Avô sorriu, depois rasgou o embrulho com calma, e voltou a sorrir ao ver o livro e a dedicatória que nele estava. Era um livro em branco e vinha com um desafio:

“O nosso desejo é que ele possa servir como depósito das tuas histórias e da tua sabedoria, e tudo que Deus usou para construir a tua vida.”

O Avô expressou um agradecimento emocionado, depois, com um ar mais sério, disse que não o podia fazer. Voltou a sorriu e acrescentou: “mas tu podes”.

E foi tudo quanto bastou para nascer este projecto.

Há precisamente um ano e um dia, sentado no aeroporto de Frankfurt, esbocei o prefácio do livro. Do outro lado da enorme fachada de vidro à minha frente estendia-se uma monótona paisagem de cinzento, com esfalfo e cimento a perder de vista, onde um qualquer espaço parecia a repetição de outro qualquer no mesmo horizonte. Lá do alto tudo era inerte e feio. Embora funcional, a paisagem era estéril.

Pelo menos assim pensei perante a tristeza de tal cenário… até que os meus olhos aterraram no solo alcatroado vários metros abaixo, onde uma pequena flor se destacava do desalento ao seu redor.

Aquela imagem, um fragmento de vida a irromper através do concreto e crescer em direcção à luz, pouco mais que um vestígio de cor no universo monocromático do nada, fez-me a perceber aquilo que tinha acabado de escrever momentos antes sobre a singularidade do Avô Mateus e da sua vida. O Avô destacou-se, tal como aquela pequena planta no meio do deserto de pedra.

Achei o momento digno de registo, mas sem máquina fotográfica para o fazer, tentei o meu melhor com o caderno de notas.

Para aqueles a quem a curiosidade foi despertada pela fotografia aqui deixada na semana passada, é tempo agora de alguns elementos adicionais. Aquela é “A Fotografia”, não apenas mais uma no meio de tantas do Avô. A fotografia simboliza um tempo, uma época, um espírito.

Pela primeira vez no demorado processo de escrita do livro faltaram-me as palavras. A fotografia mostra mais do que consigue desenhar com letras. Em relação a ela e a todos aqueles rostos, apenas consegui dizer que “Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre.”

Já nos últimos anos da sua vida, o Avô decidiu afixar esta fotografia no seu quarto, juntamente com uma do baptismo da Bisavó Ludovina. Por vezes, quando o visitava, ficávamos a olhar para ela algum tempo em silêncio, que invariavelmente acabava por ser apagado pelo Avô numa lembrança dos nomes daqueles amigos, na recordação daquele dia e, sobretudo, no lamento inaudível de um coração que acusava a saudade daquele tempo.

A fotografia era uma janela para o passado. Percebi isso na altura. Ao olhar para ela o Avô revivia aquele dia, e por instantes reencontrava os seus amigos e voltava a sentir a alegria daqueles sorrisos. Agora, e só agora, ao escrever sobre ela, percebi que afinal era também uma janela para o futuro. O Avô lembrava os amigos que partiram, mas antecipava também o reencontro final com eles. E aquilo que o Avô sentia era, acima de tudo, uma nostalgia pelo que estava para vir.

Com a alusão ao espírito desta fotografia e ao seu significado, terminei mais um capítulo do livro. O fim está agora bem mais próximo…

Por agora fica apenas esta fotografia e algumas palavras do livro que a descrevem.

“Nela alinham vinte e um rostos, distribuídos ao longo de duas fileiras; maior parte deles partilha um sorriso idêntico, muitos seguram uma Bíblia nas mãos como se fosse uma extensão natural do corpo. Entre eles está o rosto sorridente do Irmão Mateus, um homem de aspecto jovial e apelativo. Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre. Consegue-se sentir o calor daquele dia, e a frescura das águas que abraçaram todos os que nele se baptizaram.”

Um dos achados mais curiosos na tal visita ao passado em casa da Tia Micaela foi uma fotografia da década de 80. Assim que a vi percebi que teria de ser aqui publicada. Só era preciso um texto em conformidade com o momento.

Um destes dias desafiei um outro neto a escrever uma entrada aqui para o blog. Não dei qualquer sugestão quanto ao tema. O primo aceitou o desafio e escreveu.

A fotografia e o texto contam histórias relacionadas sobre um mesmo tema: as festas com o Avô. Foi mais do que pura coincidência. Foi providência. Aqui seguem ambos.

— ♦ —

As festas em família

Neto André

Uma das memórias que é impossível separar do Avô sempre foi a das festas.

A família desde sempre teve uma agradável aptidão por se reunir, qualquer que fosse a ocasião! Eram aniversários, casamentos ou simples almoços e jantares sem razão aparente, sendo que uma das imagens de marca, sempre foi uma ou duas violas que do nada sempre surgiam.

No entanto um dos momentos altos das reuniões em família, sempre foi o Natal!

Inicialmente a casa do Avô Mateus servia de local privilegiado para tudo acontecer e mais do que a comida, a memória mais remota que guardo, é estarmos na sala de estar da casa, esperando ansiosamente a chegada dos presentes, com o Avô sorridente sentado num dos sofás, divertido sem dúvida pela natural alegria e expectativa dos muitos netos que pululavam pela sala.

Memória de uma das festas de Aniversário do Avô Mateus (algures na década de 80)

O prazer que tínhamos em estarmos juntos, era acompanhado pela satisfação do Avô em ter a família reunida, onde sempre assumia o papel de patriarca, não que ele o impusesse, mas porque simplesmente lhe era inato. Todos nós sentíamos a sua presença como apaziguadora, unificando as várias gerações que se juntavam nesta época tão especial para todos, não só pelo que representa, mas também pela ausência dramática da Avó em outro longínquo Natal.

Para aqueles que no Domingo passado perderam a celebração do 51º Aniversário da Igreja Evangélica de Cucujães, fica aqui um pequeno conjunto de imagens que lá foi mostrado. O título deste breve evocar do passado da nossa comunidade foi o tema escolhido para este Domingo, o primeiro de todos os outros deste mês que serão igualmente dedicados á celebração do aniversário. O objectivo deste dia foi recordar aqueles que nos precederam e que estabeleceram as fundações da nossa comunidade. O Rebanho Intemporal é uma alusão a estes e a todos aqueles que em todas as épocas seguiram o Grande Pastor.

Para quem leu a entrada anterior, esta é óbvia. O motivo pelo qual esta comunidade existe, e pelo qual estas linhas estão a ser escritas, é porque o Avô Mateus obedeceu á voz do Espírito e, contra muitas adversidades, deu início a este trabalho que mudou radicalmente a vida de centenas – senão mesmo milhares – de pessoas. Quem já leu outras entradas como Os Bons Amigos, ficará contente por saber que estes estiveram ao lado do Avô desde o primeiro momento neste empreendimento, o que revela o poder do trabalho em comunidade.

“Que o Deus da paz, que ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, selando com o seu sangue a eterna aliança, vos conceda aquilo de que precisam para realizarem a sua vontade.”
(Hebreus 13:2)


Banda sonora: “The Holly and the Ivy” by Andrew Peterson

Aos poucos o livro vai avançando, não ao ritmo desejado, mas na cadência estabelecida por uma vida cheia de outras tantas coisas para fazer. O final está à vista e esta visão é, ao mesmo tempo, frustrante e motivadora. Não faço promessas mas deixo uma declaração de intenção – a de finalizar os capítulos em falta até ao fim de Março. Começa a contar já…

Ritmo lento não significa falta de investimento no projecto, e por isso ficam aqui duas grandes descobertas recentes (uma vez mais do fantástico espólio compilado pelo Tio Josias). São fotografias de família tiradas durante a década de 60. Na primeira, tirada em casa do Avô no seu aniversário a 29 de Setembro de 1965, estão em falta o Tio Manuel e o Tio Joaquim, que na altura estavam na guerra no Ultramar. Na segunda, tirada em estúdio a data incerta, está a família completa. Ou quase… Um olhar atento revela que o Tio Manuel (estrategicamente situado entre o Avô e a Avó) tem as proporções ligeiramente exageradas. E isto porque na altura ainda estava no Ultramar e a sua imagem foi adicionada à fotografia original. Está quase perfeito, o que para uma época em que tudo se fazia à mão e a olho, revela um trabalho excelente.

Espero que apreciem. São duas jóias familiares. Talvez acabem ambas no livro.

Festa de aniversário na casa do Avô Mateus (da esquerda para a direita: Daniel, Sara, Avô Mateus, Avó Eugénia, David, Lídia, Filipe e Josias)

Família Mateus na década de 60 (da esquerda para a direita; fila de trás: David, Joaquim, Avô Mateus, Manuel, Avó Eugénia e Daniel; fila da frente: Josias, Filipe, Lídia e Sara)

Quando tudo parece ir bem e vida promete anos longos e cheios, somos bruscamente agredidos pela morte que assalta e ataca, ofende e humilha, separa e destrói, sem que possamos resistir à sua investida ou atrasar o seu avanço. Inesperadamente, a morte agrediu a nossa família e reclamou a vida do primo Alexandre.

No meio desta perda injustificada, assiste-nos o conforto das promessas do amor e presença de Deus e a esperança que a fé em Jesus nos garante. Ficamos com estas promessas e garantias, e uma vasta nuvem de boas memórias do nosso primo.

Os momentos passados entre os primos e o Avô combinam algumas das recordações mais fortes entre as memórias que juntei desde o início deste projecto. E por isso tive de escrever sobre elas e sobre os acontecimentos que as compõem. Num capítulo em particular, relembro os tempos que íamos a casa do Avô dormir e tudo o que isso significava para nós. Embora este episódios envolvam muitos dos primos, as imagens mais nítidas que tenho desses tempos são do Alexandre. Foi com ele que passei mais tempo na casa do Avô. Em conjunto criamos uma intimidade e cumplicidade com o Avô que vencia a barreiras das idades. Fazíamos a meditação com ele e, já depois de o deixar a dormir no seu quarto, entregávamo-nos à conversa que se estendia pelas horas mais longas da noite. Éramos companheiros numa viagem em que partilhávamos segredos, alegrias e receios, sem qualquer reserva.

Agradeço a Deus a memória deste passado partilhado com o Alexandre e pela oportunidade de o ter registado no livro. Não podia agora deixar de partilhar o esboço deste capítulo, que foi um dos que mais me emocionou a escrever. Embora não consiga transcrever o detalhe e intensidade das memórias que guardo do Avô e do Alexandre, acredito que pelo menos a evocação dessas imagens seja de algum conforto para quem ler.

Capítulo 12 – A Fresca Aragem da Noite (draft)

A morte investe contra o nosso corpo mortal, mas não tem poder para reclamar a alma daqueles que, pela fé em Jesus, a entregaram nas mãos de Deus. Tal como o Alexandre fez um dia…

“Jesus então declarou-lhe: Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver.”
(João 11:25)

Faz amanhã um ano que o Avô Mateus partiu e para o lembrar, um dos netos juntou algumas imagens e publicou no seu blog. Vale a pena ver e ouvir…

http://3-acontaquealguemfez.blogspot.com/2009/11/memorias-do-avo-mateus.html

As últimas semanas foram particularmente proveitosas no que toca a novas imagens do Avô, não tanto pelo número de novas fotografias encontradas, mas pelo seu significado e idade. As mais interessantes serão aqui apresentadas em breve, juntamente com um pequeno (ou não-tão-pequeno) comentário. Juntam-se a este lote algumas imagens recentes enviadas pela Prima Alda que, no seu esforço incansável de contribuir para este projecto, conseguiu uma vez mais surpreender com as suas fotografias. E é neste contexto que decidi escrever estas linhas.

Neste novo conjunto houve uma fotografia muito especial que me lembrou o humor e boa disposição do Avô Mateus. É um raro momento de diversão que revela a sua habitual boa disposição e apetência para o divertimento. Nesta imagem, tirada durante um momento de descontracção em casa da neta Daniela, o Avô está com o seu “sorriso de marca” e com a sua habitual postura descontraída. O detalhe precioso da fotografia é garrafa de cerveja na mão do Avô, que sugere que foi apanhado a beber em flagrante enquanto assistia à bola, confortavelmente sentado no sofá. Nota-se que o Avô alinhou na brincadeira e isso torna tudo mais interessante. A imagem pode chocar os mais cinzentos, mas a vida é mesmo assim.

Um momento descontraído em casa da neta Daniela (4 de Julho de 2006)

Um momento descontraído em casa da neta Daniela (4 de Julho de 2006)

Sem querer avançar muito nestas matérias, uma vez que no livro recebem a devida atenção, não posso deixar de salientar que o sorriso natural – que definia os traços faciais do Avô – e a sua boa disposição, resultavam de uma mistura de um coração alegre e uma liberdade de preconceitos sobre a sua imagem e sobre o que os outros poderiam pensar dele. Como o Avô sempre dizia, o que importa é agradar a Deus, não aos homens. Com a sua maneira de estar na vida, o Avô mostrava que Deus não tem a natureza cinzenta e aborrecida que geralmente lhe é atribuída.

O seu “sorriso de marca”, a sua habitual boa disposição e o seu humor inigualável são um dos temas centrais do livro, reemergindo um pouco por todo o lado ao longo da narrativa. Alguns capítulos lidam exclusivamente com esta faceta do Avô e com várias histórias a ela ligadas, algumas delas em episódios pessoais, outras em acontecimentos que envolvem várias pessoas (quase sempre os netos, porque era junto destes que o Avô permitia que o seu bom humor andasse completamente livre).

Por agora fica a imagem e a calorosa lembrança do sorriso do Avô e da sua alegria contagiante.

“Um rosto alegre traduz a felicidade dum coração.”
(Provérbios 15:13)

2008_avo_biggi

Esta fotografia, tirada o ano passado no dia de aniversário do Avô, captou o raro momento de alegria absoluta que acontece quando o amor explode e une dois corações distanciados 90 anos.  Mais tarde, ao ver as fotografias daquele dia, percebi que o Avô Mateus ainda teve a invulgar oportunidade de se apaixonar no fim do seu tempo. Apaixonou-se por todos os bisnetos e fez questão de viver e mostrar esse amor.

Para lembrar esse amor, escrevi um curto capítulo designado de Amores de última hora, uma débil tentativa de cristalizar essas manifestações de afecto.

Se ainda estivesse deste lado da vida, o Avô iria celebrar hoje o seu 93º aniversário. Como habitualmente, familiares e amigos estariam ao seu lado a festejar. Para que se saiba, a celebração nunca foi devido ao Avô completar mais um ano, mas antes pelo simples privilégio de o termos connosco durante esse período. Hoje é a primeira vez em décadas que este ritual não se vai repetir. Ainda assim, a data é lembrada para quem o Avô Mateus continua a ser uma presença constante nas suas mentes e corações.

Ao longo de décadas, enquanto a família crescia, o Avô Mateus esforçou-se por reforçar os laços familiares e manter uma unidade que desfiou todas as expectativas. Era o núcleo em torno do qual todos nós gravitávamos, o centro do nosso sistema solar, um sol que nos mantinha presos a si pela força atractiva do seu amor e nos iluminava com a sua luz. A sua presença orientou tantos e evitou que alguns, sem rumo, se perdessem num universo vazio. Acima de tudo, ele evitou que a família fosse um grupo disperso, desligado e disfuncional de pessoas. Ele lembrava-se constantemente de todos nós nas suas orações, e pedia a Deus para nos guardar, fortalecer e dar sabedoria. Para nós, o Avô era a presença visível de Deus na família, do seu cuidado e protecção, das suas incontáveis dádivas.

Não era difícil imaginar que se o Avô não estivesse presente, o nosso sistema familiar, na sua típica complexidade, começaria a perder a sua ordem aos poucos. Sem uma força gravítica suficientemente forte para manter os planetas numa órbita fixa, estes acabam por derivar pelo espaço. Com a partida do Avô e da força do seu amor, a família parece agora divagar insegura no vazio, sem rumo certo, sem um referencial para se orientar. E é por isso tão importante continuar a lembrar o Avô e aquilo que ele representava para nós.

Em relação ao seu aniversário, foi num deles que compôs um poema, um dos poucos registos pessoais e íntimos que deixou escrito. Colado durante anos nas costas de uma fotografia, esteve lá à espera de ser descoberto, o que veio a acontecer há pouco tempo. A fotografia foi tirada no último aniversário que o Avô celebrou na companhia da Avó. Estão lado a lado na sua casa, com o ar alegre de quem tem no colo o primeiro neto. É uma imagem interessante – umas das primeiras a cores do Avô – mas foi a grossura do papel da fotografia que mais me despertou o interesse. Por curiosidade, voltei a fotografia para ver que papel era aquele e, inesperadamente, encontrei um poema escrito pelo Avô no lado de trás.

fmateus_poema_1984

Poema escrito pelo Avô Mateus no dia do seu aniversário a 29 de Setembro de 1984

Foi provavelmente uma das descobertas mais significativas desde que comecei a procurar fotografias e outros documentos relacionados com o Avô. No poema, o Avô compara o seu último aniversário ao lado da Avó em 1969, com o que vivia no momento que escreveu aquelas linhas em 1984. Quinze anos haviam passado e as saudades pareciam ser tantas como se tivessem passados apenas 15 dias. Hoje faz vinte e cinco anos desde que o Avô escreveu aquelas linhas, e quarenta desde que celebrou o seu último aniversário ao lado da Avó. Hoje, finalmente, pode celebrar de novo na sua companhia.

O poema é um lamento e é impossível sondar o que ia na alma do Avô. As suas palavras carregam uma atmosfera algo sombria, como se uma nuvem de saudade e tristeza toldasse a luz da esperança. As palavras acusam a dor da perda irreparável da companheira da sua juventude, da perda de uma parte de si mesmo. Independentemente das intenções, uma coisa é certa, o poema foi escrito com lágrimas. Neste mesmo dia, há dez anos atrás, numa longa conversa durante a sua festa, o Avô lembrou a Avó e disse-me: “No dia em que a tua avó morreu, a minha vida acabou, deixou de ter significado. Acabou a minha alegria.”

O Avô viveu até ao fim dos seus dias com esta dor crónica da alma – a saudade permanente da Avó – invadido por um desejo esmagador de a poder ver outra vez, de a abraçar e beijar, nem que fosse por breves instantes. Parece que a sua data de aniversário era uma forte lembrança dos anos que o afastavam da Avó.

Estes dois pensamentos revelam que o amor pela Avó sempre ardeu no seu coração. Ainda que íntimos, merecem ser revelados, somente porque confessam a sua fragilidade e, ao mesmo tempo, mostram a incrível força que o ajudou a aguentar a separação. E anunciam que foi um outro amor que eventualmente acabou por conquistar o seu coração e fazê-lo feliz – o amor de Deus.

“Põe-me como um selo sobre o teu coração, como uma aliança, permanentemente; porque o amor é forte como a morte…”
(Cantares de Salomão 8:6)

mateus_timetravel

Duas novas fotografias fazem agora parte do arquivo de imagens do Avô. A simples satisfação de as ter conseguido faz-me colocá-las aqui para todos verem, mas não sem uma pequena nota sobre elas.

A mais recente foi recolhida do escritório do meu pai, onde sempre esteve à vista de todos desde o Natal de 2005, quando o Avô ofereceu uma igual a todos os filhos. Curiosamente, só agora me lembrei que seria uma boa imagem para adicionar ao blog e, posteriormente, ao livro. Apesar de ter sido um presente dado em 2005, a fotografia deve ter sido tirada no final da década de 90.

A mais antiga já me era familiar. Desde sempre esteve na sala de casa do Avô, cuidadosamente colocada ao lado de uma fotografia da Avó Eugénia, em molduras gémeas. As fotografias, tiradas talvez na década de 40, conseguiram captar a beleza e amor que brilham nas suas caras. A fotografia da Avó já a tinha conseguido através do vasto espólio fotográfico compilado pelo Tio Josias, mas não a do Avô.

Cada vez que olhava para a fotografia sabia que a tinha que incluir no livro. E então, num qualquer dia das últimas semanas, numa ocasião propícia, aproveitando uma visita inocente a casa do Avô, subi ao andar de cima e, sem qualquer gesto suspeito, removi a fotografia da moldura e trouxe-a comigo. Foi uma espécie de furto muito pouco qualificado, mas por uma muito boa causa. Prometo devolvê-la agora que a digitalizei.

É sempre bom quando alguém partilha uma história nova sobre o Avô, revela um detalhe desconhecido até ao momento, ou relembra uma informação entretanto esquecida. Mas a maior surpresa acontece quando, inesperadamente, surge uma fotografia de “outros tempos” desconhecida até aí.

E foi isso que aconteceu ontem, quando recebi por email um par de fotografia enviadas pela prima Alda, que vive mesmo ao lado do Tio Zé no Rio de Janeiro. As fotografias são antigas, e uma delas (em baixo) é provavelmente a mais antiga fotografia do Avô Mateus que consegui encontrar até agora.

A fotografia foi tirada à porta de um “salão protestante,” o equivalente na altura à designação actual de “igreja protestante.” A data é incerta mas, a calcular pelos relatos do livro do Tio Zé (já aqui falado), deve ter sido tirada entre 1943 e 1945. Pela longa chaminé que se vê no lado esquerdo da fotografia, não é difícil perceber que se trata de S. João da Madeira. No meio da multidão é difícil encontrar o Avô Mateus e eu próprio não consigo identificá-lo com certeza. Mas ele está lá e a prima Alda sugere que é o rapaz que se vê em pé quase no meio da fotografia, mesmo em frente à porta, de fato escuro e gravata clara. As feições do rosto e o penteado assim o sugerem. É também possível ver o Tio Zé, cuja forte presença parece dominar a fotografia. É o primeiro “moço” ajoelhado à direita na fila da frente.

Obrigado Alda por esta janela para o passado. É um tesouro.

Á porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

À porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

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O Avô na igreja em Cucujães (12/04/2004)

São tantas as memórias do Avô que seria impossível compilar todas num só livro. São tão preciosos estes momentos que seria impensável não os guardar. Embora não estejam necessariamente dentro do âmbito do livro, muitas destas histórias de familiares e amigos que envolvem o Avô merecem ser preservadas. Como repositório destes instantes, este blog conta a partir de hoje com uma nova página, sugestivamente rotulada de Momentos.

Qualquer pessoa poderá ter o seu momento aqui publicado. Poderá ser na forma de fotografias, pequenos filmes ou texto, que deverá ser enviado para davi.misael@gmail.com.

Aproveitei estes dias de férias aqui por SJM para visitar o quintal do Avô Mateus com os meninos. Como habitual, fomos invadidos por aquele sentimento de aventura assim que cruzamos os portões de casa do Avô, tal como se estivéssemos prestes a entrar em território desconhecido. O quintal do Avô sempre cativou os netos pela sua natureza exótica. “Um pequeno jardim secreto que sempre explorávamos com o mesmo entusiasmo e fascínio,” foi como me ocorreu registar no livro a nossa admiração pelo local. Curiosamente, este fascínio parece ter despertado naturalmente nos bisnetos, que sempre se entregam a aventuras e explorações quando lá andam.
Seguindo o ritual antigo dos netos, sondei demoradamente todas as árvores e arbustos à procura dos tão saborosos frutos que o Avô sempre teve no seu quintal. Constantemente na companhia do M & A, procuramos os frutos como se de um tesouro se tratasse. Todo o esforço foi compensado, como sempre, desta vez em deliciosos morangos, amoras, fisális, maças, laranjas e ameixas. Para fugir ao abrasador sol de Agosto, sentei-me com os meninos no alívio da sombra de uma das árvores, onde juntos e descalços fizemos um banquete do fruto da nossa apanha. Da boca da Abi saiu um espontâneo e inocente “obrigado vovô Mateus.” Nada poderia ter sido dito com mais significado. O Avô, tal como as árvores de fruto do seu quintal, continua a deliciar-nos com as suas memórias e os frutos da sua vida.
Por todas as aventuras passadas e presentes neste território tão fantástico, muitas delas em incursões lideradas pelo Avô, não podia deixar de parte esta Terra do Nunca no livro das memórias. Embora o capítulo sobre a casa do Avô e o seu jardim já esteja delineado, haverá sempre espaço para mais lembranças ou reflexões se estas surgirem. Fica desde já o desafio para todos.

Aproveitei estes dias de férias aqui por SJM para visitar o quintal do Avô Mateus com os meninos. Como habitual, fomos invadidos por aquele sentimento de aventura assim que cruzamos os portões de casa do Avô, tal como se estivéssemos prestes a entrar em território desconhecido. O quintal do Avô sempre cativou os netos pela sua natureza exótica. “Um pequeno jardim secreto que sempre explorávamos com o mesmo entusiasmo e fascínio,” foi como me ocorreu registar no livro a nossa admiração pelo local. Curiosamente, este fascínio parece ter despertado naturalmente nos bisnetos, que sempre se entregam a aventuras e explorações quando lá andam.

Seguindo o ritual antigo dos netos, sondei demoradamente todas as árvores e arbustos à procura dos tão saborosos frutos que o Avô sempre teve no seu quintal. Constantemente na companhia do M & A, procuramos os frutos como se de um tesouro se tratasse. Todo o esforço foi compensado, como sempre, desta vez em deliciosos morangos, amoras, fisális, maças, laranjas e ameixas. Para fugir ao abrasador sol de Agosto, sentei-me com os meninos no alívio da sombra de uma das árvores, onde juntos e descalços fizemos um banquete do fruto da nossa apanha. Da boca da Abi saiu um espontâneo e inocente “obrigado vovô Mateus.” Nada poderia ter sido dito com mais significado. O Avô, tal como as árvores de fruto do seu quintal, continua a deliciar-nos com as suas memórias e os frutos da sua vida.

Esboço feito durante a escrita do primeiro capítulo do livro - Sobre Árvores e Homens.

Esboço feito durante a escrita do primeiro capítulo do livro - Sobre Árvores e Homens.

Por todas as aventuras passadas e presentes neste território tão fantástico, muitas delas em incursões lideradas pelo Avô, não podia deixar de parte esta Terra do Nunca no livro das memórias. Embora o capítulo sobre a casa do Avô e o seu jardim já esteja delineado, haverá sempre espaço para mais lembranças ou reflexões se estas surgirem. Fica desde já o desafio para todos.

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Desenho do livro de notas do autor (entretanto a neta Daniela observou - com razão - que e a tampa do frasco está mal representada, uma vez que a original era mais larga)

No fim-de-semana passado tive a felicidade de encontrar um dos meus alimentos favoritos – favos de mel. Como qualquer iguaria, esta não é menos rara e difícil de apanhar. Como tudo que é exótico, é também adquirida a um preço acima do seu valor real. Mas vale a pena, não só pelo sabor, mas pelas memórias que desperta. Invariavelmente, sempre que sinto o aroma ou paladar do mel, lembro-me do Avô Mateus. Este reflexo condicionado, partilhado por muitos dos netos, foi adquirido ao longo de anos, de tantos que foram os famosos lanches de bolachas com mel na cozinha do Avô. Estas memórias devem ser as primeiras e mais belas que temos do Avô.

Curiosamente foi com esta memória partilhada que comecei o esboço do livro, e foi também o primeiro capítulo que escrevi, de nome “Doces Memórias.” Define o estilo para todo o livro.

Como o trabalho ainda vai na forma de “versão preliminar,” qualquer detalhe adicional dos participantes pode revelar-se precioso.  Em jeito de aliciação, deixo algumas linhas do final deste capítulo, ficando aberto a sugestões, correcções, ou outras quaisquer acções que ajudem a melhorar a obra.

“Ficaria connosco para toda a vida, esta imagem de um homem de palavras e sabedoria doces como mel. Na singela perfeição daqueles momentos, entregues a um simples prazer, nunca poderíamos imaginar que aquele mel e aquele cerimonial de alegria seriam uma metáfora para o nosso relacionamento com o Avô (…) Cúmplices neste segredo de gerações, guardamos com o Avô estas doces memórias que incansavelmente saboreamos ao longo dos anos, as primeiras de muitas que entretanto iriam aparecer. Só por si, estas recordações seriam uma herança inestimável se nada mais ficasse da memória do Avô Mateus. Ficaram como uma lembrança perfeita da infância…”

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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