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Aqui fica uma ou outra coisa que eventualmente poderá ter interesse aos fiéis seguidores do blog:

  1. Mais um capítulo terminado, o penúltimo, segundo as estimativas mais recentes.
  2. O blog completou um ano de existência! A primeira entrada foi a 30 de Junho de 2009. Ainda se lembram das sérias dúvidas que tinham na altura sobre a viabilidade deste projecto?!?!
  3. 1 ano, 45 posts, 170 comentários, sei lá quantos seguidores inscritos e…. e esta é mesmo surpreendente… mais de 5000 visitas.
  4. Não sei bem o que significa 5000 visitas num ano, mas deve significar algo de bom, do género que o (Avô) Mateus não foi esquecido e que a sua vida continua a despertar interesse e a inspirar. E a dar fruto…
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Não há terreno mais fértil que a narrativa pessoal para quem procura traçar o rumo dos dias passados de uma vida consumada. É a palavra da pessoa que fala mais alto, mesmo que a sua voz tenha há muito emudecido. Sem um legado de diários, livro de memórias ou outras anotações passageiras e intemporais, restam pequenos fragmentos de dias vividos, anotados aqui e acolá, a propósito ou sem ele, para um qualquer fim mais ou menos trivial. Para quem quer trilhar o rumo de outra vida, não há melhor mapa que aquele desenhado por quem a viveu; por quem aqui passou e falou de si. Não é por ser um testemunho mais verdadeiro, mas por nele estar a verdade de uma história mais pessoal e íntima – mais real.

Já aqui tenho contado histórias de pequenos instantes que aparecem do nada só para desvendar alguns detalhes da complexa história do Avô Mateus: fotografias, documentos, pequenas anotações pessoais… Apesar da constante procura por estes fragmentos, eles tem vindo á superfície do oceano do tempo ao seu próprio ritmo, obedecendo a uma cadência oculta e oportuna.

Há vários meses que sabia que o Avô Mateus tinha a dada altura escrito uma carta dirigida aos filhos num contexto pouco claro, com vários elementos auto-biográficos. Sabia esta seria uma das principais peças no mosaico de fragmentos que compõem o mapa do tesouro que é a vida do Avô. Procurei, perguntei, ansiei… sempre sem resultado. Cheguei ao ponto de desistir encontrar aquilo que eu assumia ser a mais importante das descobertas na escrita do livro. E depois disso desisti mesmo, mas sem nunca conseguir sossegar aquela pequena voz que diz que tudo acontece no momento certo.

Desisti até ao momento certo chegar, quando o primo Ricardo me telefonou a perguntar se eu tinha interesse numa carta que ele tinha encontrado no meio de uns documentos; uma carta escrita pelo Avô e dirigida aos filhos. Assim do nada, quando já não esperava nada mais, em perfeita harmonia com tudo o resto que tem acontecido na escrita deste livro, veio á superfície o maior de todos os fragmentos. Esta é mesmo a grande descoberta! E no seguimento do que já tem acontecido antes, foi feita por um dos muitos interessados na história do Avô.

É mais importante o conteúdo da carta do que posso agora aqui mencionar. O porque do Avô ter escrito esta carta apenas será incidentalmente aflorado no livro. Nela o Avô verteu momentos do seu passado ao longo de 55 pequenos parágrafos. Alguns deles permanecerão ocultos, mas grande parte será transcrita no livro. Curiosamente, tinha optado por dedicar um dos capítulos ao percurso profissional do Avô numa espécie de sumário executivo, pelo que o conteúdo desta carta será um complemento perfeito. A quantidade de informação é avassaladora, e é particularmente interessante recebê-la das mãos do Avô ao fim deste tempo todo.

Mesmo perto do final do livro, parece que a última palavra é mesmo a do Avô…

Elementar meu caro neto,” teria dito o Avô ao filho do seu filho que se lembrou, ao fim deste tempo todo, que talvez fosse uma boa ideia fazer uma procura pelo nome do pai do seu pai na internet.

Ainda não me tinha lembrado desta e admito, com alguma vergonha, que assumi que nada relacionado com o Avô poderia ser encontrado na internet. E talvez seja escusado dizer que errei. Agora a pensar nisso, nem sei porque não escrevi as palavras “Francisco Mateus” num motor de busca e pressionei enter bem mais cedo.

Bem, pior que fazer tarde é não fazer, e eu finalmente fiz. E o resultado?

Comecemos por lembrar que a internet é uma rede de malha muito fina e por isso apanha quase tudo, o que interessa e o que não interessa. E foi muita coisa apareceu ligada ao nome em causa. Deu para perceber imediatamente que o nome não é assim tão incomum no universo lusófono. Mas nestas coisas nunca se pode desistir cedo e a perseverança geralmente paga. E aqui também pagou bem!

Após algum tempo a ler sobre personagens com o nome igual ao do Avô, mas sem qualquer outra semelhança, lá apareceu uma pérola, que afinal de contas tinha sido publicada n’O Regional, um dos jornais locais de S. João da Madeira.

“O Sr. Francisco, como toda gente sabe, é uma pessoa bondosa, de educação cristã. Foi um empresário que proporcionou empregos às famílias são-joanenses. Contribui para o progresso desta terra. Colaborou, durante décadas, com as várias instituições de solidariedade social, com as associações desportivas, culturais e recreativas do concelho, dando importantes donativos, sem se preocupar em saber quais as conotações políticas e religiosas das mesmas. O senhor Francisco Mateus mereceu sempre – e continuará a merecer certamente – o respeito e a admiração dos são-joanenses pela sua bondade, pela sua postura, pela sua rectidão como pessoa de bem e pela grandeza do seu carácter.”

O elogio é rasgado e honesto. E até é melhor do que isso… é verdadeiro. Ter sido um amigo e admirador do Avô a escrever não diminui o seu valor, porque nos dias que correm, nem os amigos escrevem assim sobre os seus amigos, a não ser que estes sejam verdadeiramente excepcionais. Tal como o Avô Mateus.

Estas palavras bem podiam ser um sumário executivo do livro. Talvez até as cite no último capitulo que já estou a escrever. São um olhar isento (ou seja, sem o incontrolável preconceito de um neto que acha que o seu Avô era o maior… e o mais bonito) sobre a pessoa que era o Avô e sobre o seu legado.

O autor do tal elogio rematou-o com uma observação curiosa:

“Talvez por o senhor Francisco Mateus nunca se ter posto em bicos de pés para ser notado, nem ter participado nunca em manifestações de carácter político, se tenham esquecido dele. Mas não todos. Apenas os que são de curta memória.”

E é por isto que estas notícias são escritas, e este blog, e o livro. Para distribuir gratuitamente um antídoto contra a falta de memória.

Obrigado Ade pelas palavras.

Obrigado Avô por as mereceres. Foste o maior (e o mais bonito…)

F. Mateus com uma boa postura (data incerta, lugar incerto com neve)

Do tempo de criança fica connosco uma elementar lição de vida. Tudo que construímos acaba, inevitavelmente, por ser destruído. É uma questão de tempo e das circunstâncias. Na praia construímos castelos de areia com a dedicação e envolvimento de quem está a construir uma coisa para a vida. Depois vem a água, ou o vento, ou o pé descuidado de alguém, ou o pé intencional, e o nosso castelo desaparece. E com ele os nossos sonhos e fantasias. E se não for nenhuma das anteriores, a simples inconsistência dos pequenos grãos de areia fará com que o nosso empreendimento não dure muito.

Crescemos e continuamos a construir castelos com o mesmo empenho, mas vamos percebendo que o que fazemos tem os dias contados, tal como nós.

O Avô Mateus sempre foi um construtor ao longo da sua vida – construiu relacionamentos, vidas, famílias, casas, prédios – e as suas qualidades nesta vocação melhoraram com a idade. E tudo que o construiu foi feito com este conhecimento implícito de que nada que o homem faz é indestrutível e eterno deste lado da vida. Ainda assim, ele construiu para durar.

No jornal da terra saiu a semana passada uma notícia a comunicar que o negócio de família iniciado pelo Avô há mais de meio século enfrenta a eminência de ser finalmente destruído. Da notícia saliento apenas o mais interessante, já que o resto não o merece:

Fundada há mais de 57 anos por Francisco Soares Mateus, a empresa adquire a forma actual em que o património e gestão da ARSOL passou a ser controlada pelos filhos, a partir de 1983. Dedicados à empresa desde muito jovens, os actuais sócios têm participado activamente na sua evolução, cujos aspectos mais marcantes se prendem com a diversão da produção implementada ao longo dos anos. Assim, até 1965, a sua actividade consistiu no fabrico de estores em madeira, altura em que foi introduzida a produção de estores em PVC. Em 1969, a ARSOL iniciou o fabrico e montagem de caixilharia de alumínio e anodização. Finalmente, em 1983, dá-se o arranque para o fabrico de tubos em PVC e acessórios, produtos que vieram a assumir um papel fundamental na expansão dos negócios da empresa.

As obras do homem morrem, mais cedo ou mais tarde, tal como ele. Mas não os frutos da sua vida; esses podem estender-se pela eternidade. E é por isso irrelevante se tudo que o Avô construiu venha a desaparecer, porque o fruto que ele deixou, tecido numa matéria mais consistente do que simples átomos, nunca desaparecerá.

Esqueci-me, deliberadamente, de um pormenor. Ao longo do seu percurso o Avô Mateus aprendeu algo importante. Aquilo que o homem constrói perece com ele; Aquilo que Deus constrói permanece. E por isso o Avô disponibilizou a sua vida para Deus construir através dela.

Pequena oficina onde nasceram os estores ARSOL

Ao fazer as malas para uma viagem podemos escolher o que levar. E o que deixar para trás. Não fazemos o mesmo com as nossas memórias. Elas viajam connosco para todo o lado. Dependem de onde viemos, e não para onde vamos.

Por vezes, no meio de uma viagem, algo nos faz lembrar outras viagens, outros tempos. Não há maneira de nos habituarmos à improbabilidade da recordação inesperada de certas memórias. E ainda bem, porque muitas delas são puramente excepcionais.

Entro no quarto de hotel, a milhas de casa, num outro país. Inicio de imediato a rotina do viajante – inspeccionar o alojamento que não causou uma boa primeira impressão. Nem segunda ou terceira. O estilo Vitoriano, algo apelativo, do exterior do edifício esconde a decoração retro-kitsch do quarto, que é feio, independentemente do ângulo que se olhe. Não é uma questão de ângulos, ou de gosto. É funcional, mas feio. Sem pensar, abro uma gaveta de uma peça de mobiliário que se assemelha a uma secretária, mas cuja função desconheço. Através da pequena frincha – porque nestas coisas nunca convém abrir mais que uma pequena frincha, não vá de lá saltar alguma forma animal com 3 ou mais pares de pedúnculos – e vejo letras douradas contra um fundo vermelho. A minha atenção está presa. Abro a gaveta mais um pouco, agora sem medos.

PLACED BY THE GIDEONS. Lembro-me imediatamente do Avô Mateus.

Faz agora sentido o pensamento sobre lembranças inesperadas?

Foi através do Avô Mateus que conheci este movimento que atravessa fronteiras e tem como objectivo superior fazer da Bíblia um bem comum e acessível a todos. Quem conhecia o Avô Mateus sabe o amor que tinha pela Palavra e ao quanto ele se entregava para que outros a conhecessem. Se havia um grupo de pessoas interessadas em fazer chegar a Bíblia aos outros, o Avô só podia estar do seu lado. Daí o seu envolvimento com os Gideões. (curioso, o nome em inglês soa bem melhor…)

Hoje é difícil imaginar que, noutros tempos, uma Bíblia poderia ser a única fonte de vida nas horas mortas de um quarto de hotel perdido no meio do nada. Entre deixar o olhar vaguear pelas paredes feias do aposento, ou deixá-lo percorrer o texto de um livro de fama duvidosa, muitos escolheram a segunda opção. Não se sabe ao certo o que terão lá encontrado. Deus?

Depois veio a televisão, e agora o laptop e o wireless. Distracção não falta. Mas apesar dela, e das paredes feias e do estilo repassado da decoração, a Bíblia continua na gaveta, pronta a ser encontrada e a revelar o Deus que espera ser também encontrado no meio deste mundo que, como este hotel, tem uma fachada que promete algo interessante, mas que depois de visto por dentro, é geralmente retro-kitch, independentemente do ângulo com que se olha. Porque não é uma questão de ângulos, ou de gostos. É mesmo assim.

Lembrei-me do Avô e do seu amor pela Palavra, sobre o qual já escrevi abundantemente. Percebo agora que sem a visão do mundo que ele nos passou, este não passaria de um local retro-kitsch (na melhor das hipóteses). E muito mais pequeno. Sem Deus.

Lembrei-me que tenho de acabar de escrever o livro rapidamente.

Por vezes o esforço de procura é longo e nem sempre bem sucedido. Na melhor das hipóteses lá se encontra um documento, uma carta, ou uma fotografia que se suspeitava existir, mas às quais se tinha perdido o rumo. Outras vezes são estes fragmentos do passado que nos encontram; aparecem no meio de coisas insuspeitas, em estantes poeirentas e gavetas esquecidas. Mas o melhor é mesmo quando nos vem ter à mão, pela mão de outras pessoas. À surpresa de tão inesperado achado acresce, quase sempre, a originalidade do artigo.

Pode parecer que ando a fazer colecção de itens relacionados com o Avô. E se calhar ando mesmo. E o último que adicionei á compilação foi oferecido pelo primo Xico, juntamente com o sorriso gigante de quem sabe que está a ofertar algo muito valioso. Pela sua originalidade e interesse, decidi colocá-lo aqui.

É uma boa memória, a do Sr. Mateus. O Avô Mateus sempre foi o Avô para nós, mas para muitas pessoas ele era o Sr. Mateus, um empresário e homem de negócios (de sucesso, pode-se adiantar). Ao contrário de muitos outros homens de negócios, que vingam na vida e são conhecidos (e definidos) pelos seus negócios, os do Avô são um detalhe que apenas acrescentam algum interesse adicional á sua vida. Ainda assim, teria sido impossível omitir esta faceta no livro, e por isso escrevi em tempos um capítulo sobre o tal Sr. Mateus, o empreendedor. Desde barbeiro a construtor civil, está lá (quase) tudo. Ou pelo menos muita coisa.

Foi um capítulo interessante de escrever, sobretudo porque não senti a mínima pressão de dizer tudo o que o Avô fez ou enumerar todos os negócios que teve. Do ponto de vista dos netos, a partir do qual o livro é escrito, o Avô continuaria a ser o maior, tivesse ou não sucesso nos negócios. E assim este capítulo é uma espécie de bónus no livro. E dar um bónus é sempre bom.

Por agora fica a recordação do Avô na sua faceta de construtor, e a lembrança das suas incursões nas obras, mazelas resultantes dessas aventuras, e das lições que nos dava sobre cofragens, assentamento de tijolo, pés-direitos, reforço das vigas e derivados.

Para aqueles que no Domingo passado perderam a celebração do 51º Aniversário da Igreja Evangélica de Cucujães, fica aqui um pequeno conjunto de imagens que lá foi mostrado. O título deste breve evocar do passado da nossa comunidade foi o tema escolhido para este Domingo, o primeiro de todos os outros deste mês que serão igualmente dedicados á celebração do aniversário. O objectivo deste dia foi recordar aqueles que nos precederam e que estabeleceram as fundações da nossa comunidade. O Rebanho Intemporal é uma alusão a estes e a todos aqueles que em todas as épocas seguiram o Grande Pastor.

Para quem leu a entrada anterior, esta é óbvia. O motivo pelo qual esta comunidade existe, e pelo qual estas linhas estão a ser escritas, é porque o Avô Mateus obedeceu á voz do Espírito e, contra muitas adversidades, deu início a este trabalho que mudou radicalmente a vida de centenas – senão mesmo milhares – de pessoas. Quem já leu outras entradas como Os Bons Amigos, ficará contente por saber que estes estiveram ao lado do Avô desde o primeiro momento neste empreendimento, o que revela o poder do trabalho em comunidade.

“Que o Deus da paz, que ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, selando com o seu sangue a eterna aliança, vos conceda aquilo de que precisam para realizarem a sua vontade.”
(Hebreus 13:2)


Banda sonora: “The Holly and the Ivy” by Andrew Peterson

No meio de incontáveis recordações do Avô sobressaem algumas pelo seu brilho especial, tal como o cintilar intenso de algumas estrelas as destacam do povoado mar negro de luzeiros. Algumas são de momentos únicos, outras apenas de momentos comuns que, por algum motivo, deixaram uma impressão mais forte no instável universo das memórias.

Lembro-me com particular limpidez do dia em que o Avô me telefonou a convocar para um encontro no seu escritório. Tinha algo importante para me mostrar. O tom animado da sua voz denunciava ser coisa interessante e agradável. Quando cheguei ao escritório pouco depois, encontrei o Avô com o seu habitual sorriso de marca. Mas naquele dia havia algo mais no seu sorriso, uma certa efervescência expectante. O Avô estava animado com o que quer que fosse que tinha para mostrar. Após o nosso habitual cumprimento de beijos e puxares de orelhas simulados, um pouco mais apressado naquele dia, ele abriu uma das gavetas da sua secretária e tirou de lá… uma folha de papel!

Confesso que não fiquei surpreendido. Fotocópias não são propriamente objectos que causam impressões fortes. Mas o sorriso persistente sugeria que aquela folha trazia alguma surpresa. E assim foi. Era uma cópia do documento original do contrato de arrendamento da pequena garagem onde a comunidade da Igreja Evangélica de Cucujães se fixou e onde permanece até aos nossos dias. Era um fragmento da história da nossa comunidade; ligava as origens a uma data, e o nome do Avô a ambas.

A partilha daquele documento foi um acto de cumplicidade no esforço de estabelecer a veracidade do relato da história da nossa comunidade. Ainda que não acreditasse que um neto pudesse colocar a palavra de um avô em causa, o Avô sentiu a necessidade de validar a sua com este documento. Agora pode parecer um pouco despropositado, mas na altura o Avô enfrentava o descrédito de algumas pessoas da comunidade que tentavam apagar o seu nome da fundação e do trabalho original. É impossível separar a história do Avô Mateus da história da Igreja Evangélica de Cucujães porque fazem parte uma da outra. O Avô foi um dos membros fundadores desta comunidade e a sua assinatura no contrato inicial de arrendamento do espaço atesta a sua posição de pioneiro.

A cópia deste documento andou muito tempo perdida no meio de tantos outros segredos nas minhas gavetas. Durante todo esse tempo sempre a procurei sem sucesso e cheguei a acreditar que a tinha perdido. Curiosamente reencontrei-a há alguns meses na companhia de algumas fotografias e cartas mais antigas. Parece que aguardou pacientemente pelo momento certo de se deixar encontrar.

Escusado será dizer que todas estas histórias vão figurar no livro, mas nem sempre com o mesmo detalhe. Infelizmente alguns dos seus contornos foram esbatidos pelo esquecimento dos anos.

Continua intenso o esforço de encontrar tempo para terminar o primeiro rascunho do livro. Entretanto percebi que seria necessário um capítulo adicional de fecho, não mais na forma de memórias ou histórias, mas de outra natureza.

Já tenho dedicado muito esforço mental a este capítulo e, embora já tenha uma ideia clara sobre o conteúdo, ainda não escrevi uma linha. Como tudo ainda está em aberto nesta matéria, podem sempre surgir novas ideias ou novos conteúdos. E foi o que aconteceu estes dias.

Recebi por correio uma encomenda há muito esperada – nada mais nada menos que os cadernos de notas de Leonardo Da Vinci em 3 volumes profusamente ilustrados. Algo chamou a minha atenção assim que folheei o primeiro livro. No meio de outras tantas reflexões estavam as seguintes linhas:

“(…) nada é mais passageiro que os anos, mas aquele que semeia virtude colhe honra.”

Pareciam mesmo estar ali é espera de serem encontradas. Percebi imediatamente que as teria de citar no livro porque:  (1) ecoam as palavras do livro de Provérbios (largamente citado ao longo de todo o trabalho) e são uma curiosa transposição da advertência “quem semeia ventos, colhe tempestades” do profeta Oseias; (2) adaptam-se perfeitamente ao Avô Mateus.

Afinal de contas parece que as primeiras linhas do último capítulo acabaram de ser escritas.

Embora o início da nova estação seja hoje marcado pelo solstício de Inverno, o frio e chuva já a vem anunciando faz algum tempo. É nestes dias cinzentos e tristes que emergem as memórias da estação quente e dos seus longos dias de sol. Foi no espírito destas lembranças que finalizei mais um capítulo do livro, talvez um dos que mais demorou a ser redigido. Comecei a escrevê-lo no auge do Verão passado, sentado numa cama de uma das camaratas do Centro Bíblico de Esmoriz, banhado por um sol glorioso e refrescado pelo vento de norte que invadia o espaço.

As ideias iniciais foram amadurecendo durante os meses que passaram e, aos poucos, foi surgindo uma ligação evidente entre o Avô Mateus e as memórias (quase perfeitas) que guardo das semanas de acampamento dos verões passados naquele local. Numa aproximação mais elementar, pode-se dizer que estas memórias só existem por causa do trabalho do Avô e alguns amigos. Foram eles que em 1967 iniciaram a construção do acampamento, certamente com uma clara visão do futuro, mas ainda assim longe de imaginar o verdadeiro impacto que teria na vida de milhares de pessoas.

Este foi um dos capítulos que mais prazer deu escrever, ainda que não tenha sido o mais fácil. Descobrir o papel do Avô Mateus na construção do CBE e na sua manutenção ao longo de décadas foi uma descoberta tardia para mim e para os primos. Mas foi certamente uma das mais incríveis. Esta é talvez a obra do Avô que mais orgulho me dá.

O Avô Mateus fez uma casa na praia, não para si ou para os seus. Fê-la para todos. Por isso dei a este capítulo o sugestivo nome de “Uma Casa na Praia.”

Obras de construção do Centro Bíblico de Esmoriz

Se ainda estivesse deste lado da vida, o Avô iria celebrar hoje o seu 93º aniversário. Como habitualmente, familiares e amigos estariam ao seu lado a festejar. Para que se saiba, a celebração nunca foi devido ao Avô completar mais um ano, mas antes pelo simples privilégio de o termos connosco durante esse período. Hoje é a primeira vez em décadas que este ritual não se vai repetir. Ainda assim, a data é lembrada para quem o Avô Mateus continua a ser uma presença constante nas suas mentes e corações.

Ao longo de décadas, enquanto a família crescia, o Avô Mateus esforçou-se por reforçar os laços familiares e manter uma unidade que desfiou todas as expectativas. Era o núcleo em torno do qual todos nós gravitávamos, o centro do nosso sistema solar, um sol que nos mantinha presos a si pela força atractiva do seu amor e nos iluminava com a sua luz. A sua presença orientou tantos e evitou que alguns, sem rumo, se perdessem num universo vazio. Acima de tudo, ele evitou que a família fosse um grupo disperso, desligado e disfuncional de pessoas. Ele lembrava-se constantemente de todos nós nas suas orações, e pedia a Deus para nos guardar, fortalecer e dar sabedoria. Para nós, o Avô era a presença visível de Deus na família, do seu cuidado e protecção, das suas incontáveis dádivas.

Não era difícil imaginar que se o Avô não estivesse presente, o nosso sistema familiar, na sua típica complexidade, começaria a perder a sua ordem aos poucos. Sem uma força gravítica suficientemente forte para manter os planetas numa órbita fixa, estes acabam por derivar pelo espaço. Com a partida do Avô e da força do seu amor, a família parece agora divagar insegura no vazio, sem rumo certo, sem um referencial para se orientar. E é por isso tão importante continuar a lembrar o Avô e aquilo que ele representava para nós.

Em relação ao seu aniversário, foi num deles que compôs um poema, um dos poucos registos pessoais e íntimos que deixou escrito. Colado durante anos nas costas de uma fotografia, esteve lá à espera de ser descoberto, o que veio a acontecer há pouco tempo. A fotografia foi tirada no último aniversário que o Avô celebrou na companhia da Avó. Estão lado a lado na sua casa, com o ar alegre de quem tem no colo o primeiro neto. É uma imagem interessante – umas das primeiras a cores do Avô – mas foi a grossura do papel da fotografia que mais me despertou o interesse. Por curiosidade, voltei a fotografia para ver que papel era aquele e, inesperadamente, encontrei um poema escrito pelo Avô no lado de trás.

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Poema escrito pelo Avô Mateus no dia do seu aniversário a 29 de Setembro de 1984

Foi provavelmente uma das descobertas mais significativas desde que comecei a procurar fotografias e outros documentos relacionados com o Avô. No poema, o Avô compara o seu último aniversário ao lado da Avó em 1969, com o que vivia no momento que escreveu aquelas linhas em 1984. Quinze anos haviam passado e as saudades pareciam ser tantas como se tivessem passados apenas 15 dias. Hoje faz vinte e cinco anos desde que o Avô escreveu aquelas linhas, e quarenta desde que celebrou o seu último aniversário ao lado da Avó. Hoje, finalmente, pode celebrar de novo na sua companhia.

O poema é um lamento e é impossível sondar o que ia na alma do Avô. As suas palavras carregam uma atmosfera algo sombria, como se uma nuvem de saudade e tristeza toldasse a luz da esperança. As palavras acusam a dor da perda irreparável da companheira da sua juventude, da perda de uma parte de si mesmo. Independentemente das intenções, uma coisa é certa, o poema foi escrito com lágrimas. Neste mesmo dia, há dez anos atrás, numa longa conversa durante a sua festa, o Avô lembrou a Avó e disse-me: “No dia em que a tua avó morreu, a minha vida acabou, deixou de ter significado. Acabou a minha alegria.”

O Avô viveu até ao fim dos seus dias com esta dor crónica da alma – a saudade permanente da Avó – invadido por um desejo esmagador de a poder ver outra vez, de a abraçar e beijar, nem que fosse por breves instantes. Parece que a sua data de aniversário era uma forte lembrança dos anos que o afastavam da Avó.

Estes dois pensamentos revelam que o amor pela Avó sempre ardeu no seu coração. Ainda que íntimos, merecem ser revelados, somente porque confessam a sua fragilidade e, ao mesmo tempo, mostram a incrível força que o ajudou a aguentar a separação. E anunciam que foi um outro amor que eventualmente acabou por conquistar o seu coração e fazê-lo feliz – o amor de Deus.

“Põe-me como um selo sobre o teu coração, como uma aliança, permanentemente; porque o amor é forte como a morte…”
(Cantares de Salomão 8:6)

FOTOS ANTIGAS 013

Francisco Mateus algures no passado

Escrever um livro é uma tarefa motivadora quando o tema é interessante. Se o tema é fascinante, a tarefa torna-se quase sublime.  E temas fascinantes não faltam quando se fala de alguém com um carácter singular como Francisco Soares Mateus, mais conhecido por Avô Mateus, mas igualmente reconhecido como Sr. Mateus, Irmão Mateus, ou simplesmente O Mateus.

Sabendo do interesse de muitos amigos e familiares em preservar a sua memória, este blog pretende manter os futuros leitores a par do progresso da escrita do livro de memórias e, ao mesmo tempo, envolvê-los no processo de escrita, através da partilha de todo o tipo de informação sobre O Mateus.

O livro será uma colecção de histórias e memórias de alguém que se destacou como pessoa, amigo, pai, avô, irmão e, mais importante, como servo de Deus. A ideia do livro, assim como o seu título – Uma Árvore de Vida – nasceu no dia em que um neto se cruzou, não por acaso, com uma frase do livro de Provérbios no Antigo Testamento: ”Os que seguem Deus são como uma árvore de vida.” Num momento de rara lucidez, percebeu imediatamente que o seu Avô era uma dessas árvores.

Um álbum de memórias é uma melhor definição para este trabalho do que propriamente um livro. Entre inúmeras alusões ao passado do Avô Mateus (como é apresentado ao longo do livro), são as histórias, muitas delas de momentos pessoais Avô-neto(s), que mais se destacam.

Todos os comentários às mensagens adicionadas ao blog são bem-vindos, especialmente se relembrarem o passado d’O Mateus.

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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