You are currently browsing the tag archive for the ‘igreja’ tag.

Para aqueles a quem a curiosidade foi despertada pela fotografia aqui deixada na semana passada, é tempo agora de alguns elementos adicionais. Aquela é “A Fotografia”, não apenas mais uma no meio de tantas do Avô. A fotografia simboliza um tempo, uma época, um espírito.

Pela primeira vez no demorado processo de escrita do livro faltaram-me as palavras. A fotografia mostra mais do que consigue desenhar com letras. Em relação a ela e a todos aqueles rostos, apenas consegui dizer que “Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre.”

Já nos últimos anos da sua vida, o Avô decidiu afixar esta fotografia no seu quarto, juntamente com uma do baptismo da Bisavó Ludovina. Por vezes, quando o visitava, ficávamos a olhar para ela algum tempo em silêncio, que invariavelmente acabava por ser apagado pelo Avô numa lembrança dos nomes daqueles amigos, na recordação daquele dia e, sobretudo, no lamento inaudível de um coração que acusava a saudade daquele tempo.

A fotografia era uma janela para o passado. Percebi isso na altura. Ao olhar para ela o Avô revivia aquele dia, e por instantes reencontrava os seus amigos e voltava a sentir a alegria daqueles sorrisos. Agora, e só agora, ao escrever sobre ela, percebi que afinal era também uma janela para o futuro. O Avô lembrava os amigos que partiram, mas antecipava também o reencontro final com eles. E aquilo que o Avô sentia era, acima de tudo, uma nostalgia pelo que estava para vir.

Com a alusão ao espírito desta fotografia e ao seu significado, terminei mais um capítulo do livro. O fim está agora bem mais próximo…

Anúncios

Por agora fica apenas esta fotografia e algumas palavras do livro que a descrevem.

“Nela alinham vinte e um rostos, distribuídos ao longo de duas fileiras; maior parte deles partilha um sorriso idêntico, muitos seguram uma Bíblia nas mãos como se fosse uma extensão natural do corpo. Entre eles está o rosto sorridente do Irmão Mateus, um homem de aspecto jovial e apelativo. Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre. Consegue-se sentir o calor daquele dia, e a frescura das águas que abraçaram todos os que nele se baptizaram.”

Durante os últimos tempos escrevo sobre o percurso inicial do Avô Mateus depois da sua loucura de entrar num “Salão protestante” e, imaginem só a alienação, se ter tornado protestante. São muitas as histórias em torno desta aventura, e ainda mais sobre as suas implicações, mas isso é matéria de livro.

Um dos aspectos que mais me tem atraído neste início de percurso é o envolvimento do Avô com outras pessoas de igual mente e espírito, em especial os que viriam a ser os bons amigos. Ainda não consegui muita informação de como vieram a conhecer-se e como o seu percurso foi trilhado em conjunto daí para a frente.

Tenho procurado mas não encontrado. E é aqui que tudo se torna mais interessante. Não encontro o que quero, mas encontro o que não espero. Um destes dias folheava um caderno de notas mais antigo e, inesperadamente – como tanta coisa no percurso da escrita deste livro -, encontrei uma folha subtraída a uma agenda com uma referência a um destes amigos do Avô, o Sr. Timóteo.

A página assinala o dia 23 de Janeiro de 1998 e contém unicamente uma curta frase:

O Sr. Timóteo já está com Adonai

Do resto da agenda não sei. Nem quis saber no final de 1998. Guardei apenas esta página porque numa linha apenas estava registada a coisa mais significativa daquele ano. Na altura não conhecia ainda as histórias partilhadas entre o Avô Mateus e o Sr. Timóteo, mas este era já um bom amigo, contra todas as probabilidades impostas pela significativa diferença de idades entra nós. Agora sei que na preocupação e interesse que ele demonstrava, por mim e os primos, pesava muito o facto de sermos netos do Mateus. Para o Avô e o Sr. Timóteo, e tantos do seu tempo, ser amigo de alguém implicava ser amigo da família.

O dia em que o Sr. Timóteo partiu foi um dia marcante para mim. Sei que foi ainda mais marcante para o Avô Mateus, porque se despediu de um companheiro de longa viagem.

Foi uma forma diferente de ver um filme, a de sábado à tarde. Não havia a escuridão da sala de cinema ou a mudez da assistência, nem a habitual história ficcionada, romanceada ou simplesmente inventada. A sala estava acesa com a luz que vertia da janela gigante, os meninos corriam e riam por todo o lado, a conversa enchia o ar. O filme, feito de histórias reais que se ligavam em trama apertada no tecido do passado, estava diante dos nossos olhos e ao alcance das nossas mãos, espalhado em cima da grande mesa que servia de tela. Este filme aconteceu, via-se nas centenas de fotografias e outros tantos documentos que falavam aos nossos olhos, através dos factos documentados e com as emoções que emanavam das cartas. Era um filme que jamais algum cinema poderia ter em cartaz.

Vimos este filme no caloroso conforto da sala da tia Micaela. Foi uma tarde magnífica que consumou a promessa de uma visita para revisitar o passado. E foi muita a informação recolhida para o livro nesta tarde. Décadas de história contavam-se à nossa frente nos factos espalhados em certidões de notário, registos, óbitos, escrituras e incontáveis cartas de encorajamento, consolo e de calorosas discussões. Conseguimos desenterrar verdadeiros tesouros de datas, nomes, locais e momentos.

Grande parte dos documentos relacionava-se com a fundação e tempos primordiais do Centro Bíblico e Acampamentos de Esmoriz (CBAE, no seu nome original), e com as controvérsias doutrinárias que eclodiram dentro da Igreja Evangélica de S. João da Madeira, bem no início da década de 70. O papel activo do Avô em ambos os assuntos era evidente nos documentos. Os bons amigos, o Sr. Timóteo e o Sr. Joel, também lá estavam, lado a lado com o Avô, presentes com o mesmo empenho e tenacidade. Curiosamente, também lá estava um outro bom amigo – o Walter Alexandre – igualmente com um papel de relevo.

As fotografias não eram menos cativantes e algumas delas vieram engrossar o lote de imagens coleccionadas para o livro e blog. Entre estas, contam-se algumas particularmente interessantes (e a pedir para serem divulgadas). São imagens que revelam o lado de viajante internacional do Avô, numa visita a Israel em 1979. A evocação do passado distante do Antigo Testamento, tão forte naquelas fotografias, trouxe-me á memória a ancestral bênção sacerdotal do povo de Israel, e que me parece adequada à vida do Avô.

“O Senhor te abençoe e te guarde; Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.” (Números 6:24-26)

No final daquela tarde fiquei preso às imagens que vi, a pensar nas histórias que contam e naquelas que ocultam. A grande história de uma vida cheia é espantosa; a beleza dos detalhes não é menos impressionante.

Sinto o dever e a responsabilidade de captar parte desse brilho no livro.

P.S. Shalom aleichem – Saudação hebraica que significa “A Paz seja contigo”

Para aqueles que no Domingo passado perderam a celebração do 51º Aniversário da Igreja Evangélica de Cucujães, fica aqui um pequeno conjunto de imagens que lá foi mostrado. O título deste breve evocar do passado da nossa comunidade foi o tema escolhido para este Domingo, o primeiro de todos os outros deste mês que serão igualmente dedicados á celebração do aniversário. O objectivo deste dia foi recordar aqueles que nos precederam e que estabeleceram as fundações da nossa comunidade. O Rebanho Intemporal é uma alusão a estes e a todos aqueles que em todas as épocas seguiram o Grande Pastor.

Para quem leu a entrada anterior, esta é óbvia. O motivo pelo qual esta comunidade existe, e pelo qual estas linhas estão a ser escritas, é porque o Avô Mateus obedeceu á voz do Espírito e, contra muitas adversidades, deu início a este trabalho que mudou radicalmente a vida de centenas – senão mesmo milhares – de pessoas. Quem já leu outras entradas como Os Bons Amigos, ficará contente por saber que estes estiveram ao lado do Avô desde o primeiro momento neste empreendimento, o que revela o poder do trabalho em comunidade.

“Que o Deus da paz, que ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, selando com o seu sangue a eterna aliança, vos conceda aquilo de que precisam para realizarem a sua vontade.”
(Hebreus 13:2)


Banda sonora: “The Holly and the Ivy” by Andrew Peterson

No meio de incontáveis recordações do Avô sobressaem algumas pelo seu brilho especial, tal como o cintilar intenso de algumas estrelas as destacam do povoado mar negro de luzeiros. Algumas são de momentos únicos, outras apenas de momentos comuns que, por algum motivo, deixaram uma impressão mais forte no instável universo das memórias.

Lembro-me com particular limpidez do dia em que o Avô me telefonou a convocar para um encontro no seu escritório. Tinha algo importante para me mostrar. O tom animado da sua voz denunciava ser coisa interessante e agradável. Quando cheguei ao escritório pouco depois, encontrei o Avô com o seu habitual sorriso de marca. Mas naquele dia havia algo mais no seu sorriso, uma certa efervescência expectante. O Avô estava animado com o que quer que fosse que tinha para mostrar. Após o nosso habitual cumprimento de beijos e puxares de orelhas simulados, um pouco mais apressado naquele dia, ele abriu uma das gavetas da sua secretária e tirou de lá… uma folha de papel!

Confesso que não fiquei surpreendido. Fotocópias não são propriamente objectos que causam impressões fortes. Mas o sorriso persistente sugeria que aquela folha trazia alguma surpresa. E assim foi. Era uma cópia do documento original do contrato de arrendamento da pequena garagem onde a comunidade da Igreja Evangélica de Cucujães se fixou e onde permanece até aos nossos dias. Era um fragmento da história da nossa comunidade; ligava as origens a uma data, e o nome do Avô a ambas.

A partilha daquele documento foi um acto de cumplicidade no esforço de estabelecer a veracidade do relato da história da nossa comunidade. Ainda que não acreditasse que um neto pudesse colocar a palavra de um avô em causa, o Avô sentiu a necessidade de validar a sua com este documento. Agora pode parecer um pouco despropositado, mas na altura o Avô enfrentava o descrédito de algumas pessoas da comunidade que tentavam apagar o seu nome da fundação e do trabalho original. É impossível separar a história do Avô Mateus da história da Igreja Evangélica de Cucujães porque fazem parte uma da outra. O Avô foi um dos membros fundadores desta comunidade e a sua assinatura no contrato inicial de arrendamento do espaço atesta a sua posição de pioneiro.

A cópia deste documento andou muito tempo perdida no meio de tantos outros segredos nas minhas gavetas. Durante todo esse tempo sempre a procurei sem sucesso e cheguei a acreditar que a tinha perdido. Curiosamente reencontrei-a há alguns meses na companhia de algumas fotografias e cartas mais antigas. Parece que aguardou pacientemente pelo momento certo de se deixar encontrar.

Escusado será dizer que todas estas histórias vão figurar no livro, mas nem sempre com o mesmo detalhe. Infelizmente alguns dos seus contornos foram esbatidos pelo esquecimento dos anos.

Faz amanhã um ano que o Avô Mateus partiu e para o lembrar, um dos netos juntou algumas imagens e publicou no seu blog. Vale a pena ver e ouvir…

http://3-acontaquealguemfez.blogspot.com/2009/11/memorias-do-avo-mateus.html

É sempre bom quando alguém partilha uma história nova sobre o Avô, revela um detalhe desconhecido até ao momento, ou relembra uma informação entretanto esquecida. Mas a maior surpresa acontece quando, inesperadamente, surge uma fotografia de “outros tempos” desconhecida até aí.

E foi isso que aconteceu ontem, quando recebi por email um par de fotografia enviadas pela prima Alda, que vive mesmo ao lado do Tio Zé no Rio de Janeiro. As fotografias são antigas, e uma delas (em baixo) é provavelmente a mais antiga fotografia do Avô Mateus que consegui encontrar até agora.

A fotografia foi tirada à porta de um “salão protestante,” o equivalente na altura à designação actual de “igreja protestante.” A data é incerta mas, a calcular pelos relatos do livro do Tio Zé (já aqui falado), deve ter sido tirada entre 1943 e 1945. Pela longa chaminé que se vê no lado esquerdo da fotografia, não é difícil perceber que se trata de S. João da Madeira. No meio da multidão é difícil encontrar o Avô Mateus e eu próprio não consigo identificá-lo com certeza. Mas ele está lá e a prima Alda sugere que é o rapaz que se vê em pé quase no meio da fotografia, mesmo em frente à porta, de fato escuro e gravata clara. As feições do rosto e o penteado assim o sugerem. É também possível ver o Tio Zé, cuja forte presença parece dominar a fotografia. É o primeiro “moço” ajoelhado à direita na fila da frente.

Obrigado Alda por esta janela para o passado. É um tesouro.

Á porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

À porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

Esta manhã, enquanto atravessava a ponte de autocarro e deixava o olhar nadar pelo Tejo a perder de vista, com as ideias a vaguear por recordações e sensações, dei comigo a pensar no tão querido Walter Alexander. Uma lembrança recorrente mas sempre preciosa. Invariavelmente, à sua recordação vem sempre associada uma outra, as últimas palavras do Salmo 19 com as quais ele sempre termina as suas orações. Estas memórias estão tão intimamente ligadas que é impossível dizer onde uma acaba para dar lugar à outra.

O Avô Mateus e o Walter tinham um respeito e admiração mútua, conquistado e acarinhado por anos de cumplicidade no temor e amor a Deus. Eram amigos de longa data, ainda que para o Avô o Walter fosse um “rapaz novo.” Eram igualmente um exemplo para os crentes nas palavras, na conduta, no amor, na fé e na pureza. O Avô falava muito dele e do seu trabalho, e sempre fez tudo ao seu alcance para o apoiar. Partilhavam uma natureza semelhante no que toca à sabedoria, amor pela Palavra e dedicação a Deus. E no sentido de humor.

Só conheci o Walter quando ele regressou a Portugal já na década de 90 e veio morar para S. João da Madeira. Descobri por essa altura que ele e a Elizabeth já tinham estado em Portugal muitos anos antes a colaborar com várias igrejas. Desde então eram vistos como exemplos e fonte de inspiração. O Avô Mateus lembrava-me isso frequentemente, e não poucas vezes da sua eloquência na pregação da palavra e na exortação. Um dom admirável que o Avô tanto apreciava.

Por vezes, ao olhar para as fotografias daquele tempo, tento encontrar os rostos – distintos pela sua beleza – do casal escocês que tantas pessoas marcou. E ainda marca, é certo. Até agora ainda não os consegui encontrar. Deixo aqui um pedido de partilha para quem tenha alguma fotografia do Walter e da Elizabeth em Portugal, ou onde o Avô Mateus e o Walter apareçam juntos.

Espero ainda conhecer algumas dessas histórias onde o Avô e o Walter se cruzam. Espero ter o privilégio de ouvi-las pela boca do próprio Walter.

“Que as minhas palavras te sejam agradáveis, assim como os pensamentos do meu coração, Senhor, minha rocha e meu libertador!” (Salmos 19:14)

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 5 outros seguidores

Categorias das mensagens

Blog Stats

  • 12,029 visitas