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Enganam-se os que pensam que nada se faz durante as férias: sendo uma actividade a tempo inteiro, fazer férias não deixa de providenciar alguns momentos de desocupação de tempo que são prontamente aproveitados por aqueles que gostam de escrever, sobretudo os que gostam de escrever livros sobre a vida de algum antepassado recente. Talvez seja este o meu caso…

As férias vieram a jeito para dar um forte avanço na escrita, sobretudo na harmonização de tudo o que tinha sido escrito anteriormente com o conteúdo da inigualável carta do Avô, e com uma ou outra história nova que entretanto apareceu.

Entre tudo o que foi feito, destaco aqui a descoberta do atribulado passado sobre rodas do Avô. O resultado da compilação e processamento de toda a informação – que inicia no momento em que o Avô começou a pedalar e se estende até às memórias das recentes viagens de Mercedes com os netos – foi um dos mais extensos capítulos, cheio de pequenas histórias que oscilam entre o cómico e o trágico. E é do meio de um atribulado passado sobre rodas que emerge uma nova faceta do Avô, praticamente desconhecida da família e amigos. Nesta faceta existe um detalhe que merece ser já aqui avançado pela sua espectacularidade e imprevisibilidade: o Avô foi motoqueiro!

Muito antes de haver carro, houve mota. E uma mota muito especial… a famosa Kreidler K50 de fabrico alemão. As histórias em volta desta motorizada – e do subsequente percurso automobilístico – são tão interessantes que me apetece começar já aqui a contar. Mas por agora ficam guardadas por mais uns tempos. Só digo que vai valer a pena esperar por elas…

Kreidler k50 (1950) - Foi numa motorizada igual a este que o Avô Mateus se deslocou durante muitos anos

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Achei que seria adequado compensar a fidelidade dos leitores deste blog com a estimulante notícia de mais um capítulo terminado! Este capítulo demorou a ser escrito mais que o habitual por dois motivos. Em primeiro lugar, pela disponibilidade de tempo; ou da falta dela, para ser mais exacto. Para o finalizar foi necessária a velha estratégia de recorrer à ajuda das horas mais longas da noite. O segundo motivo é bem mais relevante. Este capítulo é central na história, não porque divide o livro em dois hemisférios de igual número de folhas, mas porque descreve o evento mais importante da vida do Avô.

O titulo provisório desta secção – O (Re)Começar da Vida – dá o mote ao que se segue: a narrativa de como aos 28 anos, casado e com dois filhos, o Avô começou a viver. Sem querer avançar muito, ficam aqui algumas linhas, caso algum leitor não saiba ao certo do que se fala.

“…nesta nova vida, o medo de Deus viria a dar lugar ao temor e admiração, a vontade de obedecer à Sua vontade substituiria a obrigação de o fazer, e a esperança na vida eterna esmagaria a incerteza do destino final da alma.”

Entretanto a Linha Temporal aqui no blog foi actualizada e ligeiramente corrigida, tal como um dos capítulos do livro que descreve as nossas aventuras no carro do Avô. Em relação a este, deparei com uma curiosa contradição quando terminei a primeira versão, que já aconteceu há algum tempo, mas ainda assim achei interessante partilhar. Depois de ter escrito um capítulo onde a habilidade do Avô ao volante é exaltada, encontrei a fantástica fotografia que está abaixo, e onde se vê o Avô a tentar tirar o carro de uma vala. Foi um acidente sem precedentes e repetições. É de salientar a postura calma da Avó e o seu olhar curioso. Parece mesmo esboçar o sorriso de quem pensa as triunfantes palavras: “eu avisei…”

 

"Carro na Valeta" - Manobra de Francisco Soares Mateus (circa 1965)

mateus_jovem
Como prometido há umas semanas atrás, serão aqui afixadas algumas fotografias que andavam escondidas à espera de serem descobertas. A primeira destas é uma fotografia do Avô Mateus muito jovem com um penteado de vanguarda. Não sei se por esta altura já teria experiência nas artes de barbeiro, profissão que exerceu em alguma altura da sua vida. Pelo menos a barba e o cabelo estão irrepreensivelmente compostos. Ele deve ter aprendido bem esse ofício porque, mesmo depois dos 80, ainda fazia a barba à navalha com uma destreza tal, que impressionava sempre o neto adolescente (que imóvel ficava a contemplar a proeza).

Entretanto chegaram do Brasil mais novidades pelas mãos da prima Alda, desta vez as alcunhas do Avô Mateus, dos seus irmãos e dos pais. Apesar da avançada idade, a Tia Micas ainda conseguiu lembrar grande parte delas. Pelo seu significado histórico familiar fica aqui a menção.

Pai – Zé da Volta • Mãe – Broa • Micas (Maria Augusta) – Gordalhufa • Adelaide – Laida • Margarida – Canoca e Choradeira da Eça • Deolinda – Linda • Emília – Sardona (a mulher do Sardão) • Albino – Açafate e Fogaça • Adriano – Rabanada e Abelha • José Maria – Patachão e Dois Garfos (porque comia com dois garfos) • Amadeu – Marreco

Para finalizar, a tão esperada alcunha do Avô Mateus. Era duas, na verdade, nenhuma lisonjeira: Maciinho e Burrico. Desconheço a origem de ambas e se foram apenas utilizadas em alguma época específica da vida do Avô. A escolha de diminutivos confere, ao mesmo tempo, um certo ar carinhoso e caricato, sugerindo que os nomes foram escolhidos com algum amor.

Não deixa de ser interessante, no entanto, a escolha do Burrico para alcunhar o Avô. Talvez tenha sido a sua teimosia – que ele reconhecia como um das suas principais falhas – a inspirar este sobrenome. Teimosia, determinação, perseverança ou firmeza, é impossível dizer ao certo quando uma disposição dava lugar a outra. Pelo menos uma coisa é certa… de burrico não parecia ter muito. A sua esperteza levou-o longe na sua carreira profissional e em tudo o resto.

Como nota pessoal, acho uma ironia a pessoa mais sabia que conheci ter a alcunha de Burrico. Até nisto a pessoa do Avô está rodeada de humor.

Nota adicional: Entretanto o Tio Zé lembrou mais uma curiosa alcunha do Avô Mateus: Lambarico.

Talvez seja inexplicável como coisas infelizes nos podem fazer lembrar outras opostamente alegres. Talvez não passe de uma rara contradição. A semana passada, rica em tempo de antena daquele que já é conhecido como o idoso mais rancoroso de Portugal, trouxe consigo uma dessas contradições. Apesar da avançada idade do nosso distinto Nobel da Literatura, continua a mostrar apetência para surpreender (pela negativa) quase toda a gente.

Confesso que foi apanhado de surpresa. É certo que as suas palavras, atulhadas de falsa ignorância e intelectualidade desonesta, causam algum repúdio. Ainda assim, ao olhar para ele, para a sua postura e as suas linhas de rosto, e ao ouvir as suas frases abafadas nas últimas palavras, comecei aos poucos a desenvolver um contraditório sentimento de empatia.

Não demorei a perceber o motivo. As características evidentes da avançada idade fizeram-me lembrar o Avô Mateus. Aos poucos, o que era infeliz e triste foi dando lugar a uma boa recordação que, por breves momentos, aliviou a constante saudade do Avô. Mas as afinidades entre o Saramago e Avô Mateus ficaram-se por aí. Partilhando os jeitos e alguma postura da velhice, tudo o resto era divergente.

O Avô Mateus era dono de uma beleza rara. Os seus olhos azuis brilhavam e o seu permanente sorriso quente e genuíno cativava qualquer pessoa. O mesmo não se pode dizer do Saramago, dono de uma expressão pesada e feições agravadas por uma leve atitude de fúria. O Avô irradiava amor e tinha um sentido de humor excepcional; o senhor da televisão parecia imanar raiva e não ter um resquício de simpatia. Parecia até nem saber rir. O decano Saramago tem a sua obra lida por milhões de pessoas em todo o mundo. É, sem qualquer margem para dúvidas, uma personalidade de renome mundial. Na sua recatada fama, o Avô Mateus apenas era conhecido por um grupo modesto de pessoas. A sua obra, que o destacou claramente dos seus pares, foi ainda assim despretensiosa.

Como o Avô Mateus, incontáveis outros trilham o percurso dos seus dias sem reconhecimento internacional, fama ou outra qualquer distinção excepcional. No entanto, a sua dedicação a Deus e ao próximo, fazem com que o fruto da sua vida inspire, influencie e transforme a vida de milhares de pessoas, ainda que a grande maioria nunca venham a conhecer o seu nome. O Avô Mateus não escreveu obras literárias para levar a sua mensagem às pessoas. Em lugar disso, fez da sua vida uma obra – um poema de Deus – lido por todos que o conheceram. Não foram as suas palavras que moveram, foi a sua vida, o seu exemplo e o seu testemunho. Nunca apregoou a sua própria doutrina ou as suas ideias, mas unicamente a mensagem do Evangelho. Nunca foi movido pela raiva, mas sempre pelo amor. O Saramago é um pensador; o Avô Mateus era um sábio.

Ao ouvir o Saramago atacar tudo e todos que não atendam ao seu próprio credo, lembrei-me uma vez mais do provérbio que despertou a vontade de querer escrever um livro de memórias do Avô: “Os que seguem Deus são como uma árvore de vida.” Não pude também deixar de lembrar as primeiras palavras que escrevi para o livro, dedicadas a estas árvores de vida e ao seu valor. Escolhi para título deste capítulo inicial a expressão “Sobre Homens e Árvores.” Se escrevesse igual obra sobre o Saramago, teria que modificar este título para “Sobre Homens e Cactos.”

Na aridez que caracteriza tantas vezes a nossa existência, tal como nas paisagens desoladas de um deserto, os cactos são uma visão comum, um objecto de uma desesperante monotonia. Pouco mais oferecem que espinhos e uma sombra ridícula. A sua proximidade é desaconselhada, como advertem os seus aguçados picos. As árvores, por outro lado, são sinais de vida e esperança. À sua sombra o viajante, cansado e batido pelo sol impiedoso, encontra alívio. Nos seus frutos sacia a fome e sede. As árvores dão alento para continuar a longa e difícil jornada. Os cactos enfatizam o desespero.

O Saramago é um cacto. A sua presença é notada e a sua voz ouvida, mas nada tem para oferecer a quem procura consolo ou busca a verdade. Só se aproxima dele quem é suficientemente louco para receber um doloroso abraço. As suas palavras ferem qualquer um. As árvores gostam da proximidade, e juntas fazem um oásis. Aos cactos está destinado o isolamento.

O Avô Mateus era tudo aquilo que o Saramago nunca virá a ser – uma árvore de vida. O prémio pelas suas obras, atestado por Deus e não homens, é infinitamente superior a um Nobel. O Avô Mateus era um homem humilde com uma vida simples. Com a sua simplicidade e humildade sempre desarmou todas as aparências de importância dos “Saramagos” que com ele se cruzaram.

Teria sido interessante assistir a uma conversa entre ele e o Saramago.

“Deus escolheu aqueles que os homens tinham por ignorantes para envergonhar os sábios e aqueles que os homens tinham por fracos para envergonhar os fortes. Deus escolheu os que no mundo não têm importância nem valor para deitar abaixo os que parecem importantes.”
(1 Coríntios 1:27,28)

As últimas semanas foram particularmente proveitosas no que toca a novas imagens do Avô, não tanto pelo número de novas fotografias encontradas, mas pelo seu significado e idade. As mais interessantes serão aqui apresentadas em breve, juntamente com um pequeno (ou não-tão-pequeno) comentário. Juntam-se a este lote algumas imagens recentes enviadas pela Prima Alda que, no seu esforço incansável de contribuir para este projecto, conseguiu uma vez mais surpreender com as suas fotografias. E é neste contexto que decidi escrever estas linhas.

Neste novo conjunto houve uma fotografia muito especial que me lembrou o humor e boa disposição do Avô Mateus. É um raro momento de diversão que revela a sua habitual boa disposição e apetência para o divertimento. Nesta imagem, tirada durante um momento de descontracção em casa da neta Daniela, o Avô está com o seu “sorriso de marca” e com a sua habitual postura descontraída. O detalhe precioso da fotografia é garrafa de cerveja na mão do Avô, que sugere que foi apanhado a beber em flagrante enquanto assistia à bola, confortavelmente sentado no sofá. Nota-se que o Avô alinhou na brincadeira e isso torna tudo mais interessante. A imagem pode chocar os mais cinzentos, mas a vida é mesmo assim.

Um momento descontraído em casa da neta Daniela (4 de Julho de 2006)

Um momento descontraído em casa da neta Daniela (4 de Julho de 2006)

Sem querer avançar muito nestas matérias, uma vez que no livro recebem a devida atenção, não posso deixar de salientar que o sorriso natural – que definia os traços faciais do Avô – e a sua boa disposição, resultavam de uma mistura de um coração alegre e uma liberdade de preconceitos sobre a sua imagem e sobre o que os outros poderiam pensar dele. Como o Avô sempre dizia, o que importa é agradar a Deus, não aos homens. Com a sua maneira de estar na vida, o Avô mostrava que Deus não tem a natureza cinzenta e aborrecida que geralmente lhe é atribuída.

O seu “sorriso de marca”, a sua habitual boa disposição e o seu humor inigualável são um dos temas centrais do livro, reemergindo um pouco por todo o lado ao longo da narrativa. Alguns capítulos lidam exclusivamente com esta faceta do Avô e com várias histórias a ela ligadas, algumas delas em episódios pessoais, outras em acontecimentos que envolvem várias pessoas (quase sempre os netos, porque era junto destes que o Avô permitia que o seu bom humor andasse completamente livre).

Por agora fica a imagem e a calorosa lembrança do sorriso do Avô e da sua alegria contagiante.

“Um rosto alegre traduz a felicidade dum coração.”
(Provérbios 15:13)

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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