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Tio Zé em Terras do Brasil - 5 Março 1957

O Tio Zé fez 90 anos no passado dia 28 de Agosto e este acontecimento singular não podia deixar de ser aqui aclamado. O Tio Zé teve um relacionamento especial com o Avô Mateus durante toda a sua vida, e nem mesmo o vasto Oceano Atlântico, que se intrometeu entre eles quando o tio Zé emigrou para o Brasil em 1952, conseguiu afastá-los. E como as suas vidas estavam ligadas por laços especiais de afecto, é provavelmente a pessoa que mais atenção recebe no livro a seguir ao Avô. São muitas as histórias onde o Tio Zé aparece, estendendo-se desde os primeiros momentos de vida dos dois, até uma manhã de verão austral em 2008, quando tive o privilégio de voltar a reencontrar o Tio e os primos Amadeu e Alda no Rio de Janeiro. O encontro está relatado no livro pelo seu valor e pela evocação da memória do Avô, que tinha partido algumas semanas antes.

O Tio – tal como o Avô – é uma árvore de vida para aqueles que o rodeiam. E foi esta a grande revelação daquele fim de manhã de Novembro.

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Não há terreno mais fértil que a narrativa pessoal para quem procura traçar o rumo dos dias passados de uma vida consumada. É a palavra da pessoa que fala mais alto, mesmo que a sua voz tenha há muito emudecido. Sem um legado de diários, livro de memórias ou outras anotações passageiras e intemporais, restam pequenos fragmentos de dias vividos, anotados aqui e acolá, a propósito ou sem ele, para um qualquer fim mais ou menos trivial. Para quem quer trilhar o rumo de outra vida, não há melhor mapa que aquele desenhado por quem a viveu; por quem aqui passou e falou de si. Não é por ser um testemunho mais verdadeiro, mas por nele estar a verdade de uma história mais pessoal e íntima – mais real.

Já aqui tenho contado histórias de pequenos instantes que aparecem do nada só para desvendar alguns detalhes da complexa história do Avô Mateus: fotografias, documentos, pequenas anotações pessoais… Apesar da constante procura por estes fragmentos, eles tem vindo á superfície do oceano do tempo ao seu próprio ritmo, obedecendo a uma cadência oculta e oportuna.

Há vários meses que sabia que o Avô Mateus tinha a dada altura escrito uma carta dirigida aos filhos num contexto pouco claro, com vários elementos auto-biográficos. Sabia esta seria uma das principais peças no mosaico de fragmentos que compõem o mapa do tesouro que é a vida do Avô. Procurei, perguntei, ansiei… sempre sem resultado. Cheguei ao ponto de desistir encontrar aquilo que eu assumia ser a mais importante das descobertas na escrita do livro. E depois disso desisti mesmo, mas sem nunca conseguir sossegar aquela pequena voz que diz que tudo acontece no momento certo.

Desisti até ao momento certo chegar, quando o primo Ricardo me telefonou a perguntar se eu tinha interesse numa carta que ele tinha encontrado no meio de uns documentos; uma carta escrita pelo Avô e dirigida aos filhos. Assim do nada, quando já não esperava nada mais, em perfeita harmonia com tudo o resto que tem acontecido na escrita deste livro, veio á superfície o maior de todos os fragmentos. Esta é mesmo a grande descoberta! E no seguimento do que já tem acontecido antes, foi feita por um dos muitos interessados na história do Avô.

É mais importante o conteúdo da carta do que posso agora aqui mencionar. O porque do Avô ter escrito esta carta apenas será incidentalmente aflorado no livro. Nela o Avô verteu momentos do seu passado ao longo de 55 pequenos parágrafos. Alguns deles permanecerão ocultos, mas grande parte será transcrita no livro. Curiosamente, tinha optado por dedicar um dos capítulos ao percurso profissional do Avô numa espécie de sumário executivo, pelo que o conteúdo desta carta será um complemento perfeito. A quantidade de informação é avassaladora, e é particularmente interessante recebê-la das mãos do Avô ao fim deste tempo todo.

Mesmo perto do final do livro, parece que a última palavra é mesmo a do Avô…

Para aqueles a quem a curiosidade foi despertada pela fotografia aqui deixada na semana passada, é tempo agora de alguns elementos adicionais. Aquela é “A Fotografia”, não apenas mais uma no meio de tantas do Avô. A fotografia simboliza um tempo, uma época, um espírito.

Pela primeira vez no demorado processo de escrita do livro faltaram-me as palavras. A fotografia mostra mais do que consigue desenhar com letras. Em relação a ela e a todos aqueles rostos, apenas consegui dizer que “Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre.”

Já nos últimos anos da sua vida, o Avô decidiu afixar esta fotografia no seu quarto, juntamente com uma do baptismo da Bisavó Ludovina. Por vezes, quando o visitava, ficávamos a olhar para ela algum tempo em silêncio, que invariavelmente acabava por ser apagado pelo Avô numa lembrança dos nomes daqueles amigos, na recordação daquele dia e, sobretudo, no lamento inaudível de um coração que acusava a saudade daquele tempo.

A fotografia era uma janela para o passado. Percebi isso na altura. Ao olhar para ela o Avô revivia aquele dia, e por instantes reencontrava os seus amigos e voltava a sentir a alegria daqueles sorrisos. Agora, e só agora, ao escrever sobre ela, percebi que afinal era também uma janela para o futuro. O Avô lembrava os amigos que partiram, mas antecipava também o reencontro final com eles. E aquilo que o Avô sentia era, acima de tudo, uma nostalgia pelo que estava para vir.

Com a alusão ao espírito desta fotografia e ao seu significado, terminei mais um capítulo do livro. O fim está agora bem mais próximo…

Elementar meu caro neto,” teria dito o Avô ao filho do seu filho que se lembrou, ao fim deste tempo todo, que talvez fosse uma boa ideia fazer uma procura pelo nome do pai do seu pai na internet.

Ainda não me tinha lembrado desta e admito, com alguma vergonha, que assumi que nada relacionado com o Avô poderia ser encontrado na internet. E talvez seja escusado dizer que errei. Agora a pensar nisso, nem sei porque não escrevi as palavras “Francisco Mateus” num motor de busca e pressionei enter bem mais cedo.

Bem, pior que fazer tarde é não fazer, e eu finalmente fiz. E o resultado?

Comecemos por lembrar que a internet é uma rede de malha muito fina e por isso apanha quase tudo, o que interessa e o que não interessa. E foi muita coisa apareceu ligada ao nome em causa. Deu para perceber imediatamente que o nome não é assim tão incomum no universo lusófono. Mas nestas coisas nunca se pode desistir cedo e a perseverança geralmente paga. E aqui também pagou bem!

Após algum tempo a ler sobre personagens com o nome igual ao do Avô, mas sem qualquer outra semelhança, lá apareceu uma pérola, que afinal de contas tinha sido publicada n’O Regional, um dos jornais locais de S. João da Madeira.

“O Sr. Francisco, como toda gente sabe, é uma pessoa bondosa, de educação cristã. Foi um empresário que proporcionou empregos às famílias são-joanenses. Contribui para o progresso desta terra. Colaborou, durante décadas, com as várias instituições de solidariedade social, com as associações desportivas, culturais e recreativas do concelho, dando importantes donativos, sem se preocupar em saber quais as conotações políticas e religiosas das mesmas. O senhor Francisco Mateus mereceu sempre – e continuará a merecer certamente – o respeito e a admiração dos são-joanenses pela sua bondade, pela sua postura, pela sua rectidão como pessoa de bem e pela grandeza do seu carácter.”

O elogio é rasgado e honesto. E até é melhor do que isso… é verdadeiro. Ter sido um amigo e admirador do Avô a escrever não diminui o seu valor, porque nos dias que correm, nem os amigos escrevem assim sobre os seus amigos, a não ser que estes sejam verdadeiramente excepcionais. Tal como o Avô Mateus.

Estas palavras bem podiam ser um sumário executivo do livro. Talvez até as cite no último capitulo que já estou a escrever. São um olhar isento (ou seja, sem o incontrolável preconceito de um neto que acha que o seu Avô era o maior… e o mais bonito) sobre a pessoa que era o Avô e sobre o seu legado.

O autor do tal elogio rematou-o com uma observação curiosa:

“Talvez por o senhor Francisco Mateus nunca se ter posto em bicos de pés para ser notado, nem ter participado nunca em manifestações de carácter político, se tenham esquecido dele. Mas não todos. Apenas os que são de curta memória.”

E é por isto que estas notícias são escritas, e este blog, e o livro. Para distribuir gratuitamente um antídoto contra a falta de memória.

Obrigado Ade pelas palavras.

Obrigado Avô por as mereceres. Foste o maior (e o mais bonito…)

F. Mateus com uma boa postura (data incerta, lugar incerto com neve)

Do tempo de criança fica connosco uma elementar lição de vida. Tudo que construímos acaba, inevitavelmente, por ser destruído. É uma questão de tempo e das circunstâncias. Na praia construímos castelos de areia com a dedicação e envolvimento de quem está a construir uma coisa para a vida. Depois vem a água, ou o vento, ou o pé descuidado de alguém, ou o pé intencional, e o nosso castelo desaparece. E com ele os nossos sonhos e fantasias. E se não for nenhuma das anteriores, a simples inconsistência dos pequenos grãos de areia fará com que o nosso empreendimento não dure muito.

Crescemos e continuamos a construir castelos com o mesmo empenho, mas vamos percebendo que o que fazemos tem os dias contados, tal como nós.

O Avô Mateus sempre foi um construtor ao longo da sua vida – construiu relacionamentos, vidas, famílias, casas, prédios – e as suas qualidades nesta vocação melhoraram com a idade. E tudo que o construiu foi feito com este conhecimento implícito de que nada que o homem faz é indestrutível e eterno deste lado da vida. Ainda assim, ele construiu para durar.

No jornal da terra saiu a semana passada uma notícia a comunicar que o negócio de família iniciado pelo Avô há mais de meio século enfrenta a eminência de ser finalmente destruído. Da notícia saliento apenas o mais interessante, já que o resto não o merece:

Fundada há mais de 57 anos por Francisco Soares Mateus, a empresa adquire a forma actual em que o património e gestão da ARSOL passou a ser controlada pelos filhos, a partir de 1983. Dedicados à empresa desde muito jovens, os actuais sócios têm participado activamente na sua evolução, cujos aspectos mais marcantes se prendem com a diversão da produção implementada ao longo dos anos. Assim, até 1965, a sua actividade consistiu no fabrico de estores em madeira, altura em que foi introduzida a produção de estores em PVC. Em 1969, a ARSOL iniciou o fabrico e montagem de caixilharia de alumínio e anodização. Finalmente, em 1983, dá-se o arranque para o fabrico de tubos em PVC e acessórios, produtos que vieram a assumir um papel fundamental na expansão dos negócios da empresa.

As obras do homem morrem, mais cedo ou mais tarde, tal como ele. Mas não os frutos da sua vida; esses podem estender-se pela eternidade. E é por isso irrelevante se tudo que o Avô construiu venha a desaparecer, porque o fruto que ele deixou, tecido numa matéria mais consistente do que simples átomos, nunca desaparecerá.

Esqueci-me, deliberadamente, de um pormenor. Ao longo do seu percurso o Avô Mateus aprendeu algo importante. Aquilo que o homem constrói perece com ele; Aquilo que Deus constrói permanece. E por isso o Avô disponibilizou a sua vida para Deus construir através dela.

Pequena oficina onde nasceram os estores ARSOL

Durante os últimos tempos escrevo sobre o percurso inicial do Avô Mateus depois da sua loucura de entrar num “Salão protestante” e, imaginem só a alienação, se ter tornado protestante. São muitas as histórias em torno desta aventura, e ainda mais sobre as suas implicações, mas isso é matéria de livro.

Um dos aspectos que mais me tem atraído neste início de percurso é o envolvimento do Avô com outras pessoas de igual mente e espírito, em especial os que viriam a ser os bons amigos. Ainda não consegui muita informação de como vieram a conhecer-se e como o seu percurso foi trilhado em conjunto daí para a frente.

Tenho procurado mas não encontrado. E é aqui que tudo se torna mais interessante. Não encontro o que quero, mas encontro o que não espero. Um destes dias folheava um caderno de notas mais antigo e, inesperadamente – como tanta coisa no percurso da escrita deste livro -, encontrei uma folha subtraída a uma agenda com uma referência a um destes amigos do Avô, o Sr. Timóteo.

A página assinala o dia 23 de Janeiro de 1998 e contém unicamente uma curta frase:

O Sr. Timóteo já está com Adonai

Do resto da agenda não sei. Nem quis saber no final de 1998. Guardei apenas esta página porque numa linha apenas estava registada a coisa mais significativa daquele ano. Na altura não conhecia ainda as histórias partilhadas entre o Avô Mateus e o Sr. Timóteo, mas este era já um bom amigo, contra todas as probabilidades impostas pela significativa diferença de idades entra nós. Agora sei que na preocupação e interesse que ele demonstrava, por mim e os primos, pesava muito o facto de sermos netos do Mateus. Para o Avô e o Sr. Timóteo, e tantos do seu tempo, ser amigo de alguém implicava ser amigo da família.

O dia em que o Sr. Timóteo partiu foi um dia marcante para mim. Sei que foi ainda mais marcante para o Avô Mateus, porque se despediu de um companheiro de longa viagem.

Um dos achados mais curiosos na tal visita ao passado em casa da Tia Micaela foi uma fotografia da década de 80. Assim que a vi percebi que teria de ser aqui publicada. Só era preciso um texto em conformidade com o momento.

Um destes dias desafiei um outro neto a escrever uma entrada aqui para o blog. Não dei qualquer sugestão quanto ao tema. O primo aceitou o desafio e escreveu.

A fotografia e o texto contam histórias relacionadas sobre um mesmo tema: as festas com o Avô. Foi mais do que pura coincidência. Foi providência. Aqui seguem ambos.

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As festas em família

Neto André

Uma das memórias que é impossível separar do Avô sempre foi a das festas.

A família desde sempre teve uma agradável aptidão por se reunir, qualquer que fosse a ocasião! Eram aniversários, casamentos ou simples almoços e jantares sem razão aparente, sendo que uma das imagens de marca, sempre foi uma ou duas violas que do nada sempre surgiam.

No entanto um dos momentos altos das reuniões em família, sempre foi o Natal!

Inicialmente a casa do Avô Mateus servia de local privilegiado para tudo acontecer e mais do que a comida, a memória mais remota que guardo, é estarmos na sala de estar da casa, esperando ansiosamente a chegada dos presentes, com o Avô sorridente sentado num dos sofás, divertido sem dúvida pela natural alegria e expectativa dos muitos netos que pululavam pela sala.

Memória de uma das festas de Aniversário do Avô Mateus (algures na década de 80)

O prazer que tínhamos em estarmos juntos, era acompanhado pela satisfação do Avô em ter a família reunida, onde sempre assumia o papel de patriarca, não que ele o impusesse, mas porque simplesmente lhe era inato. Todos nós sentíamos a sua presença como apaziguadora, unificando as várias gerações que se juntavam nesta época tão especial para todos, não só pelo que representa, mas também pela ausência dramática da Avó em outro longínquo Natal.

Foi uma forma diferente de ver um filme, a de sábado à tarde. Não havia a escuridão da sala de cinema ou a mudez da assistência, nem a habitual história ficcionada, romanceada ou simplesmente inventada. A sala estava acesa com a luz que vertia da janela gigante, os meninos corriam e riam por todo o lado, a conversa enchia o ar. O filme, feito de histórias reais que se ligavam em trama apertada no tecido do passado, estava diante dos nossos olhos e ao alcance das nossas mãos, espalhado em cima da grande mesa que servia de tela. Este filme aconteceu, via-se nas centenas de fotografias e outros tantos documentos que falavam aos nossos olhos, através dos factos documentados e com as emoções que emanavam das cartas. Era um filme que jamais algum cinema poderia ter em cartaz.

Vimos este filme no caloroso conforto da sala da tia Micaela. Foi uma tarde magnífica que consumou a promessa de uma visita para revisitar o passado. E foi muita a informação recolhida para o livro nesta tarde. Décadas de história contavam-se à nossa frente nos factos espalhados em certidões de notário, registos, óbitos, escrituras e incontáveis cartas de encorajamento, consolo e de calorosas discussões. Conseguimos desenterrar verdadeiros tesouros de datas, nomes, locais e momentos.

Grande parte dos documentos relacionava-se com a fundação e tempos primordiais do Centro Bíblico e Acampamentos de Esmoriz (CBAE, no seu nome original), e com as controvérsias doutrinárias que eclodiram dentro da Igreja Evangélica de S. João da Madeira, bem no início da década de 70. O papel activo do Avô em ambos os assuntos era evidente nos documentos. Os bons amigos, o Sr. Timóteo e o Sr. Joel, também lá estavam, lado a lado com o Avô, presentes com o mesmo empenho e tenacidade. Curiosamente, também lá estava um outro bom amigo – o Walter Alexandre – igualmente com um papel de relevo.

As fotografias não eram menos cativantes e algumas delas vieram engrossar o lote de imagens coleccionadas para o livro e blog. Entre estas, contam-se algumas particularmente interessantes (e a pedir para serem divulgadas). São imagens que revelam o lado de viajante internacional do Avô, numa visita a Israel em 1979. A evocação do passado distante do Antigo Testamento, tão forte naquelas fotografias, trouxe-me á memória a ancestral bênção sacerdotal do povo de Israel, e que me parece adequada à vida do Avô.

“O Senhor te abençoe e te guarde; Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.” (Números 6:24-26)

No final daquela tarde fiquei preso às imagens que vi, a pensar nas histórias que contam e naquelas que ocultam. A grande história de uma vida cheia é espantosa; a beleza dos detalhes não é menos impressionante.

Sinto o dever e a responsabilidade de captar parte desse brilho no livro.

P.S. Shalom aleichem – Saudação hebraica que significa “A Paz seja contigo”

Para aqueles que no Domingo passado perderam a celebração do 51º Aniversário da Igreja Evangélica de Cucujães, fica aqui um pequeno conjunto de imagens que lá foi mostrado. O título deste breve evocar do passado da nossa comunidade foi o tema escolhido para este Domingo, o primeiro de todos os outros deste mês que serão igualmente dedicados á celebração do aniversário. O objectivo deste dia foi recordar aqueles que nos precederam e que estabeleceram as fundações da nossa comunidade. O Rebanho Intemporal é uma alusão a estes e a todos aqueles que em todas as épocas seguiram o Grande Pastor.

Para quem leu a entrada anterior, esta é óbvia. O motivo pelo qual esta comunidade existe, e pelo qual estas linhas estão a ser escritas, é porque o Avô Mateus obedeceu á voz do Espírito e, contra muitas adversidades, deu início a este trabalho que mudou radicalmente a vida de centenas – senão mesmo milhares – de pessoas. Quem já leu outras entradas como Os Bons Amigos, ficará contente por saber que estes estiveram ao lado do Avô desde o primeiro momento neste empreendimento, o que revela o poder do trabalho em comunidade.

“Que o Deus da paz, que ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, selando com o seu sangue a eterna aliança, vos conceda aquilo de que precisam para realizarem a sua vontade.”
(Hebreus 13:2)


Banda sonora: “The Holly and the Ivy” by Andrew Peterson

No meio de incontáveis recordações do Avô sobressaem algumas pelo seu brilho especial, tal como o cintilar intenso de algumas estrelas as destacam do povoado mar negro de luzeiros. Algumas são de momentos únicos, outras apenas de momentos comuns que, por algum motivo, deixaram uma impressão mais forte no instável universo das memórias.

Lembro-me com particular limpidez do dia em que o Avô me telefonou a convocar para um encontro no seu escritório. Tinha algo importante para me mostrar. O tom animado da sua voz denunciava ser coisa interessante e agradável. Quando cheguei ao escritório pouco depois, encontrei o Avô com o seu habitual sorriso de marca. Mas naquele dia havia algo mais no seu sorriso, uma certa efervescência expectante. O Avô estava animado com o que quer que fosse que tinha para mostrar. Após o nosso habitual cumprimento de beijos e puxares de orelhas simulados, um pouco mais apressado naquele dia, ele abriu uma das gavetas da sua secretária e tirou de lá… uma folha de papel!

Confesso que não fiquei surpreendido. Fotocópias não são propriamente objectos que causam impressões fortes. Mas o sorriso persistente sugeria que aquela folha trazia alguma surpresa. E assim foi. Era uma cópia do documento original do contrato de arrendamento da pequena garagem onde a comunidade da Igreja Evangélica de Cucujães se fixou e onde permanece até aos nossos dias. Era um fragmento da história da nossa comunidade; ligava as origens a uma data, e o nome do Avô a ambas.

A partilha daquele documento foi um acto de cumplicidade no esforço de estabelecer a veracidade do relato da história da nossa comunidade. Ainda que não acreditasse que um neto pudesse colocar a palavra de um avô em causa, o Avô sentiu a necessidade de validar a sua com este documento. Agora pode parecer um pouco despropositado, mas na altura o Avô enfrentava o descrédito de algumas pessoas da comunidade que tentavam apagar o seu nome da fundação e do trabalho original. É impossível separar a história do Avô Mateus da história da Igreja Evangélica de Cucujães porque fazem parte uma da outra. O Avô foi um dos membros fundadores desta comunidade e a sua assinatura no contrato inicial de arrendamento do espaço atesta a sua posição de pioneiro.

A cópia deste documento andou muito tempo perdida no meio de tantos outros segredos nas minhas gavetas. Durante todo esse tempo sempre a procurei sem sucesso e cheguei a acreditar que a tinha perdido. Curiosamente reencontrei-a há alguns meses na companhia de algumas fotografias e cartas mais antigas. Parece que aguardou pacientemente pelo momento certo de se deixar encontrar.

Escusado será dizer que todas estas histórias vão figurar no livro, mas nem sempre com o mesmo detalhe. Infelizmente alguns dos seus contornos foram esbatidos pelo esquecimento dos anos.

Os pais do Avô: Ludovina Rosa de Jesus e José Maria Soares Mateus. Fotografia de estúdio tirada em Oliveira de Azeméis (Junho de 1954).

Quando se é pequeno e se olha para um avô que é “velhinho”, é absurdo pensar que ele foi em tempos jovem e teve um pai e uma mãe. Depois vamos crescendo e inevitavelmente descobrimos o axioma central da biologia – toda a gente tem progenitores – e que destrói a nossa visão da natureza sempiterna dos avós.

No caso do Avô Mateus, só tomei consciência disto quando um dia ele me falou dos seus pais. Até aquele momento o Avô era um ser independente sem uma causa primária que o tivesse trazido á existência. Foi uma informação que me causou alguma estranheza inicial, mas que logo foi assimilada. A partir desse momento os pais do Avô nasceram para mim e, aos poucos, foi conhecendo os traços de carácter destes meus familiares distantes. De todas as vezes que o Avô falou deles, foi sempre para os elogiar de alguma forma.

Já aqui falei da mãe do Avô, mas nunca o tinha feito do seu pai. Mas eis que a oportunidade surge para o fazer e por um motivo especial. Um dos comentários da última entrada do blog foi feito por um primo que está no Brasil, e que queria saber se a mãe do Avô tinha o mesmo nome da bisavó dele. E tem! Ludovina Rosa de Jesus é o nome da nossa bisavó e José Maria Soares Mateus o do nosso bisavô. Quando o Avô Mateus nasceu tinham 29 e 33 anos, respectivamente.

Conhecendo o ávido interesse dos leitores do blog pelas imagens nostálgicas de outros tempos, não poderia deixar aqui ficar esta informação sem uma boa fotografia do casal em questão. Mas a coisa ainda fica melhor! Para acompanhar a fotografia fica uma breve, mas objectiva, descrição da natureza de ambos, feita por quem os teve como pais. São excertos retirados do livro autobiográfico escrito em 2004 pelo Tio Zé, que emigrou para o Brasil em 1952, dois anos antes de esta fotografia ter sido tirada.

‘’Meu pai era um homem corajoso, grande lutador pela vida, sem cultura, mas muito responsável e trabalhador. Sua profissão era de carpinteiro. Trabalhava muito para poder sustentar a prole (…) Ele não só lutava, mas também nos deu o exemplo de trabalho e carácter integro (…) Minha mãe era aquela mulher virtuosa, bem comparada a Provérbios 31:10-13; e, com sabedoria, passou para as filhas aquilo que ela era (…) nunca vi brigas entre meu pai e minha mãe, apesar de grandes lutas em tantas dificuldades da vida, na criação de muitos filhos, etc. (…) Meu pai tratava muito bem a minha mãe e carinhosamente a chamava de Bininha.’’

Embora o início da nova estação seja hoje marcado pelo solstício de Inverno, o frio e chuva já a vem anunciando faz algum tempo. É nestes dias cinzentos e tristes que emergem as memórias da estação quente e dos seus longos dias de sol. Foi no espírito destas lembranças que finalizei mais um capítulo do livro, talvez um dos que mais demorou a ser redigido. Comecei a escrevê-lo no auge do Verão passado, sentado numa cama de uma das camaratas do Centro Bíblico de Esmoriz, banhado por um sol glorioso e refrescado pelo vento de norte que invadia o espaço.

As ideias iniciais foram amadurecendo durante os meses que passaram e, aos poucos, foi surgindo uma ligação evidente entre o Avô Mateus e as memórias (quase perfeitas) que guardo das semanas de acampamento dos verões passados naquele local. Numa aproximação mais elementar, pode-se dizer que estas memórias só existem por causa do trabalho do Avô e alguns amigos. Foram eles que em 1967 iniciaram a construção do acampamento, certamente com uma clara visão do futuro, mas ainda assim longe de imaginar o verdadeiro impacto que teria na vida de milhares de pessoas.

Este foi um dos capítulos que mais prazer deu escrever, ainda que não tenha sido o mais fácil. Descobrir o papel do Avô Mateus na construção do CBE e na sua manutenção ao longo de décadas foi uma descoberta tardia para mim e para os primos. Mas foi certamente uma das mais incríveis. Esta é talvez a obra do Avô que mais orgulho me dá.

O Avô Mateus fez uma casa na praia, não para si ou para os seus. Fê-la para todos. Por isso dei a este capítulo o sugestivo nome de “Uma Casa na Praia.”

Obras de construção do Centro Bíblico de Esmoriz

Dias cinzentos e frios trazem á memória outros dias… dias de calor e sol de um passado distante, de momentos que não vivemos, mas que ainda assim evocamos.

A recordação pode ser a preto e branco, mas a luz não deixa de ser irrepreensível. Faz lembrar os verões perfeitos e a alegria neles contida. O sorriso é momentâneo e intemporal, como se aquele instante nunca tivesse fim; Como se a vida fosse só um prelúdio para uma outra infinitamente mais perfeita e abundante; Como se viver o momento e ser feliz por ele fosse uma expressão de gratidão pela eternidade esperada.

Esta fotografia veio no meio de outras tantas descobertas recentemente. Foi tirada num dia de sol e calor, com os Avós no calor da vida. É perfeita.

Um dia de sol e calor na Ria de Aveiro

Faz amanhã um ano que o Avô Mateus partiu e para o lembrar, um dos netos juntou algumas imagens e publicou no seu blog. Vale a pena ver e ouvir…

http://3-acontaquealguemfez.blogspot.com/2009/11/memorias-do-avo-mateus.html

mateus_jovem
Como prometido há umas semanas atrás, serão aqui afixadas algumas fotografias que andavam escondidas à espera de serem descobertas. A primeira destas é uma fotografia do Avô Mateus muito jovem com um penteado de vanguarda. Não sei se por esta altura já teria experiência nas artes de barbeiro, profissão que exerceu em alguma altura da sua vida. Pelo menos a barba e o cabelo estão irrepreensivelmente compostos. Ele deve ter aprendido bem esse ofício porque, mesmo depois dos 80, ainda fazia a barba à navalha com uma destreza tal, que impressionava sempre o neto adolescente (que imóvel ficava a contemplar a proeza).

Entretanto chegaram do Brasil mais novidades pelas mãos da prima Alda, desta vez as alcunhas do Avô Mateus, dos seus irmãos e dos pais. Apesar da avançada idade, a Tia Micas ainda conseguiu lembrar grande parte delas. Pelo seu significado histórico familiar fica aqui a menção.

Pai – Zé da Volta • Mãe – Broa • Micas (Maria Augusta) – Gordalhufa • Adelaide – Laida • Margarida – Canoca e Choradeira da Eça • Deolinda – Linda • Emília – Sardona (a mulher do Sardão) • Albino – Açafate e Fogaça • Adriano – Rabanada e Abelha • José Maria – Patachão e Dois Garfos (porque comia com dois garfos) • Amadeu – Marreco

Para finalizar, a tão esperada alcunha do Avô Mateus. Era duas, na verdade, nenhuma lisonjeira: Maciinho e Burrico. Desconheço a origem de ambas e se foram apenas utilizadas em alguma época específica da vida do Avô. A escolha de diminutivos confere, ao mesmo tempo, um certo ar carinhoso e caricato, sugerindo que os nomes foram escolhidos com algum amor.

Não deixa de ser interessante, no entanto, a escolha do Burrico para alcunhar o Avô. Talvez tenha sido a sua teimosia – que ele reconhecia como um das suas principais falhas – a inspirar este sobrenome. Teimosia, determinação, perseverança ou firmeza, é impossível dizer ao certo quando uma disposição dava lugar a outra. Pelo menos uma coisa é certa… de burrico não parecia ter muito. A sua esperteza levou-o longe na sua carreira profissional e em tudo o resto.

Como nota pessoal, acho uma ironia a pessoa mais sabia que conheci ter a alcunha de Burrico. Até nisto a pessoa do Avô está rodeada de humor.

Nota adicional: Entretanto o Tio Zé lembrou mais uma curiosa alcunha do Avô Mateus: Lambarico.

Se ainda estivesse deste lado da vida, o Avô iria celebrar hoje o seu 93º aniversário. Como habitualmente, familiares e amigos estariam ao seu lado a festejar. Para que se saiba, a celebração nunca foi devido ao Avô completar mais um ano, mas antes pelo simples privilégio de o termos connosco durante esse período. Hoje é a primeira vez em décadas que este ritual não se vai repetir. Ainda assim, a data é lembrada para quem o Avô Mateus continua a ser uma presença constante nas suas mentes e corações.

Ao longo de décadas, enquanto a família crescia, o Avô Mateus esforçou-se por reforçar os laços familiares e manter uma unidade que desfiou todas as expectativas. Era o núcleo em torno do qual todos nós gravitávamos, o centro do nosso sistema solar, um sol que nos mantinha presos a si pela força atractiva do seu amor e nos iluminava com a sua luz. A sua presença orientou tantos e evitou que alguns, sem rumo, se perdessem num universo vazio. Acima de tudo, ele evitou que a família fosse um grupo disperso, desligado e disfuncional de pessoas. Ele lembrava-se constantemente de todos nós nas suas orações, e pedia a Deus para nos guardar, fortalecer e dar sabedoria. Para nós, o Avô era a presença visível de Deus na família, do seu cuidado e protecção, das suas incontáveis dádivas.

Não era difícil imaginar que se o Avô não estivesse presente, o nosso sistema familiar, na sua típica complexidade, começaria a perder a sua ordem aos poucos. Sem uma força gravítica suficientemente forte para manter os planetas numa órbita fixa, estes acabam por derivar pelo espaço. Com a partida do Avô e da força do seu amor, a família parece agora divagar insegura no vazio, sem rumo certo, sem um referencial para se orientar. E é por isso tão importante continuar a lembrar o Avô e aquilo que ele representava para nós.

Em relação ao seu aniversário, foi num deles que compôs um poema, um dos poucos registos pessoais e íntimos que deixou escrito. Colado durante anos nas costas de uma fotografia, esteve lá à espera de ser descoberto, o que veio a acontecer há pouco tempo. A fotografia foi tirada no último aniversário que o Avô celebrou na companhia da Avó. Estão lado a lado na sua casa, com o ar alegre de quem tem no colo o primeiro neto. É uma imagem interessante – umas das primeiras a cores do Avô – mas foi a grossura do papel da fotografia que mais me despertou o interesse. Por curiosidade, voltei a fotografia para ver que papel era aquele e, inesperadamente, encontrei um poema escrito pelo Avô no lado de trás.

fmateus_poema_1984

Poema escrito pelo Avô Mateus no dia do seu aniversário a 29 de Setembro de 1984

Foi provavelmente uma das descobertas mais significativas desde que comecei a procurar fotografias e outros documentos relacionados com o Avô. No poema, o Avô compara o seu último aniversário ao lado da Avó em 1969, com o que vivia no momento que escreveu aquelas linhas em 1984. Quinze anos haviam passado e as saudades pareciam ser tantas como se tivessem passados apenas 15 dias. Hoje faz vinte e cinco anos desde que o Avô escreveu aquelas linhas, e quarenta desde que celebrou o seu último aniversário ao lado da Avó. Hoje, finalmente, pode celebrar de novo na sua companhia.

O poema é um lamento e é impossível sondar o que ia na alma do Avô. As suas palavras carregam uma atmosfera algo sombria, como se uma nuvem de saudade e tristeza toldasse a luz da esperança. As palavras acusam a dor da perda irreparável da companheira da sua juventude, da perda de uma parte de si mesmo. Independentemente das intenções, uma coisa é certa, o poema foi escrito com lágrimas. Neste mesmo dia, há dez anos atrás, numa longa conversa durante a sua festa, o Avô lembrou a Avó e disse-me: “No dia em que a tua avó morreu, a minha vida acabou, deixou de ter significado. Acabou a minha alegria.”

O Avô viveu até ao fim dos seus dias com esta dor crónica da alma – a saudade permanente da Avó – invadido por um desejo esmagador de a poder ver outra vez, de a abraçar e beijar, nem que fosse por breves instantes. Parece que a sua data de aniversário era uma forte lembrança dos anos que o afastavam da Avó.

Estes dois pensamentos revelam que o amor pela Avó sempre ardeu no seu coração. Ainda que íntimos, merecem ser revelados, somente porque confessam a sua fragilidade e, ao mesmo tempo, mostram a incrível força que o ajudou a aguentar a separação. E anunciam que foi um outro amor que eventualmente acabou por conquistar o seu coração e fazê-lo feliz – o amor de Deus.

“Põe-me como um selo sobre o teu coração, como uma aliança, permanentemente; porque o amor é forte como a morte…”
(Cantares de Salomão 8:6)

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Duas novas fotografias fazem agora parte do arquivo de imagens do Avô. A simples satisfação de as ter conseguido faz-me colocá-las aqui para todos verem, mas não sem uma pequena nota sobre elas.

A mais recente foi recolhida do escritório do meu pai, onde sempre esteve à vista de todos desde o Natal de 2005, quando o Avô ofereceu uma igual a todos os filhos. Curiosamente, só agora me lembrei que seria uma boa imagem para adicionar ao blog e, posteriormente, ao livro. Apesar de ter sido um presente dado em 2005, a fotografia deve ter sido tirada no final da década de 90.

A mais antiga já me era familiar. Desde sempre esteve na sala de casa do Avô, cuidadosamente colocada ao lado de uma fotografia da Avó Eugénia, em molduras gémeas. As fotografias, tiradas talvez na década de 40, conseguiram captar a beleza e amor que brilham nas suas caras. A fotografia da Avó já a tinha conseguido através do vasto espólio fotográfico compilado pelo Tio Josias, mas não a do Avô.

Cada vez que olhava para a fotografia sabia que a tinha que incluir no livro. E então, num qualquer dia das últimas semanas, numa ocasião propícia, aproveitando uma visita inocente a casa do Avô, subi ao andar de cima e, sem qualquer gesto suspeito, removi a fotografia da moldura e trouxe-a comigo. Foi uma espécie de furto muito pouco qualificado, mas por uma muito boa causa. Prometo devolvê-la agora que a digitalizei.

É sempre bom quando alguém partilha uma história nova sobre o Avô, revela um detalhe desconhecido até ao momento, ou relembra uma informação entretanto esquecida. Mas a maior surpresa acontece quando, inesperadamente, surge uma fotografia de “outros tempos” desconhecida até aí.

E foi isso que aconteceu ontem, quando recebi por email um par de fotografia enviadas pela prima Alda, que vive mesmo ao lado do Tio Zé no Rio de Janeiro. As fotografias são antigas, e uma delas (em baixo) é provavelmente a mais antiga fotografia do Avô Mateus que consegui encontrar até agora.

A fotografia foi tirada à porta de um “salão protestante,” o equivalente na altura à designação actual de “igreja protestante.” A data é incerta mas, a calcular pelos relatos do livro do Tio Zé (já aqui falado), deve ter sido tirada entre 1943 e 1945. Pela longa chaminé que se vê no lado esquerdo da fotografia, não é difícil perceber que se trata de S. João da Madeira. No meio da multidão é difícil encontrar o Avô Mateus e eu próprio não consigo identificá-lo com certeza. Mas ele está lá e a prima Alda sugere que é o rapaz que se vê em pé quase no meio da fotografia, mesmo em frente à porta, de fato escuro e gravata clara. As feições do rosto e o penteado assim o sugerem. É também possível ver o Tio Zé, cuja forte presença parece dominar a fotografia. É o primeiro “moço” ajoelhado à direita na fila da frente.

Obrigado Alda por esta janela para o passado. É um tesouro.

Á porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

À porta de um "salão protestante" (S. João da Madeira, 1943 - 45?)

O Tio Zé (do Brasil)

O Tio Zé (do Brasil)

Entre os doze irmãos e irmãs do Avô, um sempre ocupou um lugar especial no seu coração – o tio Zé. E por isso não podia deixar de escrever sobre este relacionamento especial.

Há uns meses atrás, pedi à prima Alda que está no Brasil para tentar falar com o tio Zé, na tentativa de obter mais informação sobre o passado do Avô. Acabei por descobrir que o tio Zé escreveu em 2004 um pequeno livro com muitas das suas memórias, e que a prima Alda – sempre disposta a ajudar neste projecto – estava a fazer tudo para que um exemplar me chegasse às mãos rapidamente. Confesso que a espera de apenas algumas semanas foi longa, tal era o desejo de poder ler as memórias do tio Zé. Mas valeu a pena todo o tempo de espera!

Ontem, de uma forma inesperada, recebi finalmente o livro. E entretanto já o li. Nele, o tio Zé relata o percurso da sua vida, de uma forma simples e em traços largos. Como não podia deixar de ser, o Avô Mateus é mencionado e a informação que eu tanto desejava está lá. O tio Zé explica como o Avô Mateus se envolveu com os “evangélicos” e como ele próprio, num esforço de trazer o Chico de volta ao caminho da religião dominante, acabou também por se envolver.

Muitos elementos do livro do tio Zé serão uma ajuda preciosa na tentativa de traçar o percurso do Avô. Pela singularidade do percurso de vida de ambos, em tantas coisas semelhante, decidi dedicar um capítulo do livro aos dois irmãos – duas árvores de vida. O capítulo tem como título “O Chico e o Zé,” numa afectuosa alusão ao modo como eram tratados pelos irmãos. O capítulo já está escrito há alguns meses e vai agora ser significativamente melhorado com a ajuda do trabalho do tio Zé e a dedicação da prima Alda.

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O Chico e o Zé no seu último encontro a 1 de Outubro de 2007 à porta de casa do Avô Mateus

Avó Eugénia

Avó Eugénia

Nenhum dos netos teve o privilégio de conhecer a Avó Eugénia. Mesmo o mais velho de nós, o Daniel, o único que a Avó teve oportunidade de pegar ao colo e acariciar, era na altura muito novo para poder guardar qualquer impressão desses afectos. Ainda assim, a Avó faz parte da nossa história e da nossa vida. Crescemos a ouvir falar da mulher excepcional que era, o que não deixou de nos impressionar e inspirar. A julgar pelas palavras do Avô, tios e amigos, a Avó era uma pessoa amada e um exemplo do amor em acção – um amor que era sempre grande e sentido nas pequenas coisas do quotidiano.
A Avó foi o grande amor do Avô – a verdadeira história de amor da sua vida. Mesmo depois de ter partido continuou a moldar a personalidade do Avô. Falar do Avô sem lembrar a Avó é por isso impossível. Ela esteve sempre presente até ao fim dos dias do Avô, na sua mente e no seu coração, numa saudade crónica, em parte aliviada pela certeza do reencontro eterno.
A morte nunca os separou, nem as pequenas coisas da vida. O Avô continuou a sua depois da Avó partir e, como ele mesmo reconhecia, nem sempre da melhor forma no que respeita às coisas do coração. Mas as escolhas que tomou nessas matérias, e que tantas críticas atraíram, não foram por esquecimento desse amor primordial ou por desconsideração, mas antes pela confusão emocional que o assaltou depois da separação da sua amada. “O coração tem razões que a própria razão desconhece,” escreveu o brilhante filósofo e matemático Blaize Pascal. Como cristão esclarecido, ele sabia que a natureza humana leva-nos, inexplicavelmente, a trilhar alguns rumos invulgares. A razão humana pode nunca conseguir explicar o rumo do coração do Avô. O próprio Avô não conseguia.
Se algumas das vozes que se levantaram contra ele tivessem trocado o discurso da condenação pelo da consolação, talvez as coisas tivesses sido diferentes. Poucos tentaram perceber a tragédia de perder uma esposa de repente e ficar só com uma casa cheia de filhos para governar.
Seria impossível contornar estes aspectos ao escrever as memórias do Avô, especialmente o do papel da Avó Eugénia. Em relação a ela, socorri-me das memórias partilhadas de quem a conheceu e amou. As poucas que consegui coleccionar fazem-me querer saber muito mais. Dedico um capítulo do livro ao relacionamento do Avô e da Avó que designei de “1969” – o ano em que a Avó partiu e a vida do Avô e dos tios mudou radicalmente.
Tive a oportunidade de saber pela boca do Avô Mateus o que ele sentia pela Avó, num “segredo” revelado durante a festa do seu 84º aniversário. O segredo deixou de o ser naquele momento… o Avô tinha de o desvendar. E por isso incluí-o no livro.

Nenhum dos netos teve o privilégio de conhecer a Avó Eugénia. Mesmo o mais velho de nós, o Daniel, o único que a Avó teve oportunidade de pegar ao colo e acariciar, era na altura muito novo para poder guardar qualquer impressão desses afectos. Ainda assim, a Avó faz parte da nossa história e da nossa vida. Crescemos a ouvir falar da mulher excepcional que era, o que não deixou de nos impressionar e inspirar. A julgar pelas palavras do Avô, tios e amigos, a Avó era uma pessoa amada e um exemplo do amor em acção – um amor que era sempre grande e sentido nas pequenas coisas do quotidiano.

A Avó foi o grande amor do Avô – a verdadeira história de amor da sua vida. Mesmo depois de ter partido continuou a moldar a personalidade do Avô. Falar do Avô sem lembrar a Avó é por isso impossível. Ela esteve sempre presente até ao fim dos dias do Avô, na sua mente e no seu coração, numa saudade crónica, em parte aliviada pela certeza do reencontro eterno.

A morte nunca os separou, nem as pequenas coisas da vida. O Avô continuou a sua depois da Avó partir e, como ele mesmo reconhecia, nem sempre da melhor forma no que respeita às coisas do coração. Mas as escolhas que tomou nessas matérias, e que tantas críticas atraíram, não foram por esquecimento desse amor primordial ou por desconsideração, mas antes pela confusão emocional que o assaltou depois da separação da sua amada. “O coração tem razões que a própria razão desconhece,” escreveu o brilhante filósofo e matemático Blaize Pascal. Como cristão esclarecido, ele sabia que a natureza humana leva-nos, inexplicavelmente, a trilhar alguns rumos invulgares. A razão humana pode nunca conseguir explicar o rumo do coração do Avô. O próprio Avô não conseguia.

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O casal Mateus

Se algumas das vozes que se levantaram contra ele tivessem trocado o discurso da condenação pelo da consolação, talvez as coisas tivesses sido diferentes. Poucos tentaram perceber a tragédia de perder uma esposa de repente e ficar só com uma casa cheia de filhos para governar.

Seria impossível contornar estes aspectos ao escrever as memórias do Avô, especialmente o do papel da Avó Eugénia. Em relação a ela, socorri-me das memórias partilhadas de quem a conheceu e amou. As poucas que consegui coleccionar fazem-me querer saber muito mais. Dedico um capítulo do livro ao relacionamento do Avô e da Avó que designei de “1969” – o ano em que a Avó partiu e a vida do Avô e dos tios mudou radicalmente.

Tive a oportunidade de saber pela boca do Avô Mateus o que ele sentia pela Avó, num “segredo” revelado durante a festa do seu 84º aniversário. O segredo deixou de o ser naquele momento… o Avô tinha de o desvendar. E por isso incluí-o no livro.

“Quem arranjar uma mulher virtuosa, é como se tivesse encontrado um tesouro de alto valor. O seu marido tem confiança nela, e os recursos materiais nunca lhe faltarão. Nunca se tornará um empecilho para o seu esposo; pelo contrário, sempre o ajudará a vida toda. (…) Os encantos femininos podem enganar; a beleza não dura sempre. Mas uma mulher que ama e teme Deus, essa merece todos os elogios. Será louvada por tudo o que faz, e os seus actos virtuosos serão reconhecidos publicamente.” (Provérbios 31:10-12,30,31)

Esta manhã, enquanto atravessava a ponte de autocarro e deixava o olhar nadar pelo Tejo a perder de vista, com as ideias a vaguear por recordações e sensações, dei comigo a pensar no tão querido Walter Alexander. Uma lembrança recorrente mas sempre preciosa. Invariavelmente, à sua recordação vem sempre associada uma outra, as últimas palavras do Salmo 19 com as quais ele sempre termina as suas orações. Estas memórias estão tão intimamente ligadas que é impossível dizer onde uma acaba para dar lugar à outra.

O Avô Mateus e o Walter tinham um respeito e admiração mútua, conquistado e acarinhado por anos de cumplicidade no temor e amor a Deus. Eram amigos de longa data, ainda que para o Avô o Walter fosse um “rapaz novo.” Eram igualmente um exemplo para os crentes nas palavras, na conduta, no amor, na fé e na pureza. O Avô falava muito dele e do seu trabalho, e sempre fez tudo ao seu alcance para o apoiar. Partilhavam uma natureza semelhante no que toca à sabedoria, amor pela Palavra e dedicação a Deus. E no sentido de humor.

Só conheci o Walter quando ele regressou a Portugal já na década de 90 e veio morar para S. João da Madeira. Descobri por essa altura que ele e a Elizabeth já tinham estado em Portugal muitos anos antes a colaborar com várias igrejas. Desde então eram vistos como exemplos e fonte de inspiração. O Avô Mateus lembrava-me isso frequentemente, e não poucas vezes da sua eloquência na pregação da palavra e na exortação. Um dom admirável que o Avô tanto apreciava.

Por vezes, ao olhar para as fotografias daquele tempo, tento encontrar os rostos – distintos pela sua beleza – do casal escocês que tantas pessoas marcou. E ainda marca, é certo. Até agora ainda não os consegui encontrar. Deixo aqui um pedido de partilha para quem tenha alguma fotografia do Walter e da Elizabeth em Portugal, ou onde o Avô Mateus e o Walter apareçam juntos.

Espero ainda conhecer algumas dessas histórias onde o Avô e o Walter se cruzam. Espero ter o privilégio de ouvi-las pela boca do próprio Walter.

“Que as minhas palavras te sejam agradáveis, assim como os pensamentos do meu coração, Senhor, minha rocha e meu libertador!” (Salmos 19:14)

Baptismo da Bisavó Ludovina Rosa de Jesus, mãe do Avô Mateus (Rio Vouga, Cacia)

Baptismo da Bisavó Ludovina Rosa de Jesus, mãe do Avô Mateus (Rio Vouga, Cacia, 1965)

Provavelmente muitos já tenham esquecido, mas um dos momentos mais emocionantes da vida do Avô Mateus está registado nesta fotografia. Não podia, portanto, deixar de mostrar aqui uma raridade de tamanha importância. Esta fotografia foi tirada no exacto momento em que a sua mãe, Ludovina Rosa de Jesus, imergiu das águas após o seu baptismo. A Bisavó Ludovina tinha então uma idade a rondar os 90 anos e quase igual número de quilos. O peso e a idade, ou a combinação dos dois, não tinham sido impedimento, um pormenor que o Avô sempre enfatizava.

O Avô falava deste momento com uma comoção tal que os seus olhos brilhavam pelas lágrimas de alegria que facilmente afloravam. Foi o culminar de uma vida que, próxima do seu desfecho, se rendeu ao amor de Deus. Durante décadas, o Avô esperou que este momento e orou fervorosamente para o poder testemunhar.

Esta é uma das duas fotografias que o Avô mais vezes me mostrou e sobre as quais mais falava. A outra será aqui apresentada em breve.

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A Família Mateus

Ter máquina fotográfica era noutros tempos um privilégio, mas ainda assim existe um número significativo de fotografias do Avô. O ano em que foram tiradas e, em alguns casos o local, está para ser determinado. Se é que tal tarefa seja ainda possível. Muitos rostos estão sem identidade, outros são facilmente reconhecidos. Vaguear por estas janelas do passado tem sido uma excursão a outras épocas – os tempos do Avô, – que leva invariavelmente a mais perguntas que respostas.
O tom sépia e os contornos ligeiramente indefinidos acrescentam uma certa patina de nostalgia a estas imagens, cativando o nosso olhar e levando a imaginação a divagar pelo enquadramento distante daqueles momentos. Muitas destas imagens estão já incluídas no livro para ajudar os leitores a esboçar os contornos de algumas das histórias relatadas. Afortunadamente, tal só é possível devido ao esforço incansável de um dos filhos d’O Mateus, o Tio Josias, que ao longo de anos foi passando estas imagens para suporte digital. O resultado deste trabalho é um arquivo de imagens impressionante. O Avô chegou mesmo a estar presente em algumas das sessões deste trabalho, sentado em silêncio ao lodo do tio sempre com muita paciência e curiosidade.
Se algum dos nossos leitores conseguir olhar para qualquer das imagens que por aqui vão estar e dizer algo sobre o momento, o local ou as pessoas, estará a fornecer informação privilegiada e, acima de tudo, necessária. Infelizmente não haverá espaço no livro para todas as imagens, nem tão pouco para as mais interessantes. Mas as incluídas despertarão a imaginação e a memória.
Um comentário recente de um dos netos rotula as fotografias do blog como “deliciosas.” No livro aparecerão como deliciosas janelas para o passado. Começo a pensar seriamente em disponibilizar estas imagens para todos através de um arquivo online.

Para um tempo em que ter maquina fotográfica era um previlégio, não deixa de ser interessante o número significativo de fotografias do Avô tiradas ao longo da sua vida. O ano em que foram tiradas e, em alguns casos o local, está para ser determinado. Se é que tal tarefa seja ainda possível. Muitos rostos estão sem identidade, outros são facilmente reconhecidos. Vaguear por estas janelas do passado tem sido uma excursão a outras épocas – os tempos do Avô, – que leva invariavelmente a mais perguntas que respostas.

O tom sépia e os contornos ligeiramente indefinidos acrescentam uma certa patina de nostalgia a estas imagens, cativando o nosso olhar e levando a imaginação a divagar pelo enquadramento distante daqueles momentos. Muitas destas imagens estão já incluídas no livro para ajudar os leitores a esboçar os contornos de algumas das histórias relatadas. Afortunadamente, tal só é possível devido ao esforço incansável de um dos filhos d’O Mateus, o Tio Josias, que ao longo de anos foi passando estas imagens para suporte digital. O resultado deste trabalho é um arquivo de imagens impressionante. O Avô chegou mesmo a estar presente em algumas das sessões deste trabalho, sentado em silêncio ao lodo do tio sempre com muita paciência e curiosidade.

Se algum dos nossos leitores conseguir olhar para qualquer das imagens que por aqui vão estar e dizer algo sobre o momento, o local ou as pessoas, estará a fornecer informação privilegiada e, acima de tudo, necessária. Infelizmente não haverá espaço no livro para todas as imagens, nem tão pouco para as mais interessantes. Mas as incluídas despertarão a imaginação e a memória.

Um comentário recente de um dos netos rotula as fotografias do blog como “deliciosas.” No livro aparecerão como deliciosas janelas para o passado. Começo a pensar seriamente em disponibilizar estas imagens para todos através de um arquivo online.

FOTOS ANTIGAS 004

Os bons amigos: o Sr. Joel (esquerda), o Avô (centro) e o Sr. Timóteo (direita)

Dei com esta fotografia do Avô na companhia de dois (bons) amigos de longa data: o Sr. Joel e o Sr. Timóteo. A postura dos três revela uma amizade genuína. Esta imagem ajudou-me a materializar a ideia que o Avô foi em tempos jovem, com tudo o que isso implica. Muitas das amizades que se estenderam até ao fim da sua vida foram forjadas nesta fase da sua vida.

Gostava de saber mais sobre estas amizades e sobre a sua dinâmica. Seria bom apurar mais nomes e as histórias ou momentos a ligá-los ao Avô. Fica a sugestão para os leitores…

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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