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Sim, de novo finalmente. Quase 5 anos após o anterior finalmente, a anunciar a conclusão da primeira versão do livro, surge um outro. Este anuncia o fim de outra etapa importante. Finalmente o livro está acabado e impresso!

Daqui a umas horas será o derradeiro finalmente. Vai haver festa e oferta dos livros. Poderia dizer que finalmente será possível ver o resultado do longo processo que aqui foi sendo descrito. Mas não é para isso que cá estamos, ou estivemos estas anos todos.

Finalmente a história de vida do Avô vai ser um pouco mais conhecida. Espero que o objectivo primordial deste empreendimento tenha sido alcançado: mostrar através do seu exemplo que aqueles que seguem a Deus são, na verdade, uma árvore de vida…

Chegou ao fim! Depois de incontáveis horas de trabalho, de procura e escrita, de noites gastas até às últimas horas, de momentos reflexão, de conflito, de saudade, de profunda alegria e não poucas vezes de lágrimas…

A escrita do livro terminou finalmente em quase duas centenas de páginas distribuídas ao longo de 35 capítulos. Um quase insignificante resumo de uma vida tão cheia e valorosa como a do Avô Mateus. Mas uma lembrança preciosa ainda assim. A título de introdução, fica aqui a listagem dos capítulos:

Sobre Homens e Árvores * Doces Memórias * Um Retrato (à la minute) * Sr. Mateus, o Empreendedor * O (Re)Começar da Vida * O Irmão Mateus * Onde Mora a Felicidade * 1969 * O Amor pela Palavra * Um Coração Alegre * Companheiros de Viagem * Sobre a Fé e a (in)Segurança * Um Conversador Class A * A Fresca Aragem da Noite * Lições de Vida * Os Bons Amigos * Uma Casa na Praia * O Fundador * Assuntos do Coração * Peripécias Amorosas * A Alma Sobrevivente * Lutar, Sempre. . . * Em Minha Defesa * Longe da Perfeição * A Longa Caminhada * O Chico e o Zé * Um Lar que Nunca Foi Seu * Amores de Última Hora * Reminiscências do Futuro * Sinais Secretos * Pelo Escuro Desfiladeiro da Morte * Mais Perto Quero Estar * Noite de Paz, Noite de Amor * A Herança * Sobre Homens e os Seus Frutos

 Significa isto que o livro está acabado…?  Não…

O processo de escrita está finalizado, mas são agora necessárias revisões de estilo e conteúdo, verificações gramaticais e de veracidade histórica. Os revisores estão preparados há muito tempo, seguramente ávidos para começar o seu trabalho. Ainda assim continua a haver espaço para novos revisores. Toda a ajuda é bem-vinda e certamente ira acelerar este processo de produção do livro.

Agora, mais do que nunca, o exemplo de determinação e resistência do Avô são uma inspiração indispensável.

Já passou tanto tempo desde o último post aqui no blog que as suspeita de abandono deste projecto começam a ganhar raiz. E vem então esta entrada para dissipar tais ideias. A escrita é ininterrupta, e ainda que prossiga a um ritmo demasiadamente lento – tão lento que a um olhar descuidado poderá parecer parado – ela continua. Não há desinteresse nem esquecimentos. O que não tem havido é tempo.

Curiosamente a experiência das últimas semanas tem-me levado a olhar para uma fase da vida do Avô e a tentar perceber aquilo pelo que passou. Um curto parágrafo da sua carta tem irrompido vez após vez pelo meio de tantas outras coisas que me enchem a cabeça, sobretudo nas horas pequenas da noite quando não se pode escolher entre trabalhar e dormir:

”Para vencer esta grave situação, tive de trabalhar brutalmente noite e dia…”

A vida do Avô não foi fácil. Foram muitas as dificuldades e dura a luta para enfrentar (e vencer) as que foram aparecendo. Nos tempo que correm, estas palavras do Avô são uma inspiração, um desafio a trabalhar, se preciso noite e dia, com a brutal tenacidade de quem não se deixa vencer pelas circunstâncias.

E quanto ao livro, meus amigos – e esta é certamente a última promessa que aqui deixo – vai ser terminado até ao fim do ano.

Relembro o dia em que a ideia deste livro nasceu. Era o dia de 88º aniversário do Avô, faz hoje exactamente seis anos. Já era noite quando passamos pela casa dele para lhe dar o presente de aniversário. Ele já estava deitado na cama, a ler a Bíblia como habitualmente o fazia, iluminado pela pequena luz do candeeiro que ao seu lado desafiava a escuridão do quarto. Deitamo-nos também debaixo da luz, um de cada lado do Avô, suficientemente próximos para o sentir. Entregamos o presente e o Avô sorriu, depois rasgou o embrulho com calma, e voltou a sorrir ao ver o livro e a dedicatória que nele estava. Era um livro em branco e vinha com um desafio:

“O nosso desejo é que ele possa servir como depósito das tuas histórias e da tua sabedoria, e tudo que Deus usou para construir a tua vida.”

O Avô expressou um agradecimento emocionado, depois, com um ar mais sério, disse que não o podia fazer. Voltou a sorriu e acrescentou: “mas tu podes”.

E foi tudo quanto bastou para nascer este projecto.

Há precisamente um ano e um dia, sentado no aeroporto de Frankfurt, esbocei o prefácio do livro. Do outro lado da enorme fachada de vidro à minha frente estendia-se uma monótona paisagem de cinzento, com esfalfo e cimento a perder de vista, onde um qualquer espaço parecia a repetição de outro qualquer no mesmo horizonte. Lá do alto tudo era inerte e feio. Embora funcional, a paisagem era estéril.

Pelo menos assim pensei perante a tristeza de tal cenário… até que os meus olhos aterraram no solo alcatroado vários metros abaixo, onde uma pequena flor se destacava do desalento ao seu redor.

Aquela imagem, um fragmento de vida a irromper através do concreto e crescer em direcção à luz, pouco mais que um vestígio de cor no universo monocromático do nada, fez-me a perceber aquilo que tinha acabado de escrever momentos antes sobre a singularidade do Avô Mateus e da sua vida. O Avô destacou-se, tal como aquela pequena planta no meio do deserto de pedra.

Achei o momento digno de registo, mas sem máquina fotográfica para o fazer, tentei o meu melhor com o caderno de notas.

Enganam-se os que pensam que nada se faz durante as férias: sendo uma actividade a tempo inteiro, fazer férias não deixa de providenciar alguns momentos de desocupação de tempo que são prontamente aproveitados por aqueles que gostam de escrever, sobretudo os que gostam de escrever livros sobre a vida de algum antepassado recente. Talvez seja este o meu caso…

As férias vieram a jeito para dar um forte avanço na escrita, sobretudo na harmonização de tudo o que tinha sido escrito anteriormente com o conteúdo da inigualável carta do Avô, e com uma ou outra história nova que entretanto apareceu.

Entre tudo o que foi feito, destaco aqui a descoberta do atribulado passado sobre rodas do Avô. O resultado da compilação e processamento de toda a informação – que inicia no momento em que o Avô começou a pedalar e se estende até às memórias das recentes viagens de Mercedes com os netos – foi um dos mais extensos capítulos, cheio de pequenas histórias que oscilam entre o cómico e o trágico. E é do meio de um atribulado passado sobre rodas que emerge uma nova faceta do Avô, praticamente desconhecida da família e amigos. Nesta faceta existe um detalhe que merece ser já aqui avançado pela sua espectacularidade e imprevisibilidade: o Avô foi motoqueiro!

Muito antes de haver carro, houve mota. E uma mota muito especial… a famosa Kreidler K50 de fabrico alemão. As histórias em volta desta motorizada – e do subsequente percurso automobilístico – são tão interessantes que me apetece começar já aqui a contar. Mas por agora ficam guardadas por mais uns tempos. Só digo que vai valer a pena esperar por elas…

Kreidler k50 (1950) - Foi numa motorizada igual a este que o Avô Mateus se deslocou durante muitos anos

Tio Zé em Terras do Brasil - 5 Março 1957

O Tio Zé fez 90 anos no passado dia 28 de Agosto e este acontecimento singular não podia deixar de ser aqui aclamado. O Tio Zé teve um relacionamento especial com o Avô Mateus durante toda a sua vida, e nem mesmo o vasto Oceano Atlântico, que se intrometeu entre eles quando o tio Zé emigrou para o Brasil em 1952, conseguiu afastá-los. E como as suas vidas estavam ligadas por laços especiais de afecto, é provavelmente a pessoa que mais atenção recebe no livro a seguir ao Avô. São muitas as histórias onde o Tio Zé aparece, estendendo-se desde os primeiros momentos de vida dos dois, até uma manhã de verão austral em 2008, quando tive o privilégio de voltar a reencontrar o Tio e os primos Amadeu e Alda no Rio de Janeiro. O encontro está relatado no livro pelo seu valor e pela evocação da memória do Avô, que tinha partido algumas semanas antes.

O Tio – tal como o Avô – é uma árvore de vida para aqueles que o rodeiam. E foi esta a grande revelação daquele fim de manhã de Novembro.

Aqui fica uma ou outra coisa que eventualmente poderá ter interesse aos fiéis seguidores do blog:

  1. Mais um capítulo terminado, o penúltimo, segundo as estimativas mais recentes.
  2. O blog completou um ano de existência! A primeira entrada foi a 30 de Junho de 2009. Ainda se lembram das sérias dúvidas que tinham na altura sobre a viabilidade deste projecto?!?!
  3. 1 ano, 45 posts, 170 comentários, sei lá quantos seguidores inscritos e…. e esta é mesmo surpreendente… mais de 5000 visitas.
  4. Não sei bem o que significa 5000 visitas num ano, mas deve significar algo de bom, do género que o (Avô) Mateus não foi esquecido e que a sua vida continua a despertar interesse e a inspirar. E a dar fruto…

Não há terreno mais fértil que a narrativa pessoal para quem procura traçar o rumo dos dias passados de uma vida consumada. É a palavra da pessoa que fala mais alto, mesmo que a sua voz tenha há muito emudecido. Sem um legado de diários, livro de memórias ou outras anotações passageiras e intemporais, restam pequenos fragmentos de dias vividos, anotados aqui e acolá, a propósito ou sem ele, para um qualquer fim mais ou menos trivial. Para quem quer trilhar o rumo de outra vida, não há melhor mapa que aquele desenhado por quem a viveu; por quem aqui passou e falou de si. Não é por ser um testemunho mais verdadeiro, mas por nele estar a verdade de uma história mais pessoal e íntima – mais real.

Já aqui tenho contado histórias de pequenos instantes que aparecem do nada só para desvendar alguns detalhes da complexa história do Avô Mateus: fotografias, documentos, pequenas anotações pessoais… Apesar da constante procura por estes fragmentos, eles tem vindo á superfície do oceano do tempo ao seu próprio ritmo, obedecendo a uma cadência oculta e oportuna.

Há vários meses que sabia que o Avô Mateus tinha a dada altura escrito uma carta dirigida aos filhos num contexto pouco claro, com vários elementos auto-biográficos. Sabia esta seria uma das principais peças no mosaico de fragmentos que compõem o mapa do tesouro que é a vida do Avô. Procurei, perguntei, ansiei… sempre sem resultado. Cheguei ao ponto de desistir encontrar aquilo que eu assumia ser a mais importante das descobertas na escrita do livro. E depois disso desisti mesmo, mas sem nunca conseguir sossegar aquela pequena voz que diz que tudo acontece no momento certo.

Desisti até ao momento certo chegar, quando o primo Ricardo me telefonou a perguntar se eu tinha interesse numa carta que ele tinha encontrado no meio de uns documentos; uma carta escrita pelo Avô e dirigida aos filhos. Assim do nada, quando já não esperava nada mais, em perfeita harmonia com tudo o resto que tem acontecido na escrita deste livro, veio á superfície o maior de todos os fragmentos. Esta é mesmo a grande descoberta! E no seguimento do que já tem acontecido antes, foi feita por um dos muitos interessados na história do Avô.

É mais importante o conteúdo da carta do que posso agora aqui mencionar. O porque do Avô ter escrito esta carta apenas será incidentalmente aflorado no livro. Nela o Avô verteu momentos do seu passado ao longo de 55 pequenos parágrafos. Alguns deles permanecerão ocultos, mas grande parte será transcrita no livro. Curiosamente, tinha optado por dedicar um dos capítulos ao percurso profissional do Avô numa espécie de sumário executivo, pelo que o conteúdo desta carta será um complemento perfeito. A quantidade de informação é avassaladora, e é particularmente interessante recebê-la das mãos do Avô ao fim deste tempo todo.

Mesmo perto do final do livro, parece que a última palavra é mesmo a do Avô…

Para aqueles a quem a curiosidade foi despertada pela fotografia aqui deixada na semana passada, é tempo agora de alguns elementos adicionais. Aquela é “A Fotografia”, não apenas mais uma no meio de tantas do Avô. A fotografia simboliza um tempo, uma época, um espírito.

Pela primeira vez no demorado processo de escrita do livro faltaram-me as palavras. A fotografia mostra mais do que consigue desenhar com letras. Em relação a ela e a todos aqueles rostos, apenas consegui dizer que “Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre.”

Já nos últimos anos da sua vida, o Avô decidiu afixar esta fotografia no seu quarto, juntamente com uma do baptismo da Bisavó Ludovina. Por vezes, quando o visitava, ficávamos a olhar para ela algum tempo em silêncio, que invariavelmente acabava por ser apagado pelo Avô numa lembrança dos nomes daqueles amigos, na recordação daquele dia e, sobretudo, no lamento inaudível de um coração que acusava a saudade daquele tempo.

A fotografia era uma janela para o passado. Percebi isso na altura. Ao olhar para ela o Avô revivia aquele dia, e por instantes reencontrava os seus amigos e voltava a sentir a alegria daqueles sorrisos. Agora, e só agora, ao escrever sobre ela, percebi que afinal era também uma janela para o futuro. O Avô lembrava os amigos que partiram, mas antecipava também o reencontro final com eles. E aquilo que o Avô sentia era, acima de tudo, uma nostalgia pelo que estava para vir.

Com a alusão ao espírito desta fotografia e ao seu significado, terminei mais um capítulo do livro. O fim está agora bem mais próximo…

Por agora fica apenas esta fotografia e algumas palavras do livro que a descrevem.

“Nela alinham vinte e um rostos, distribuídos ao longo de duas fileiras; maior parte deles partilha um sorriso idêntico, muitos seguram uma Bíblia nas mãos como se fosse uma extensão natural do corpo. Entre eles está o rosto sorridente do Irmão Mateus, um homem de aspecto jovial e apelativo. Estão mergulhados numa atmosfera invisível de um sentimento de intemporalidade, como se aquele momento perdido no passado se prolongasse para sempre. Consegue-se sentir o calor daquele dia, e a frescura das águas que abraçaram todos os que nele se baptizaram.”

Elementar meu caro neto,” teria dito o Avô ao filho do seu filho que se lembrou, ao fim deste tempo todo, que talvez fosse uma boa ideia fazer uma procura pelo nome do pai do seu pai na internet.

Ainda não me tinha lembrado desta e admito, com alguma vergonha, que assumi que nada relacionado com o Avô poderia ser encontrado na internet. E talvez seja escusado dizer que errei. Agora a pensar nisso, nem sei porque não escrevi as palavras “Francisco Mateus” num motor de busca e pressionei enter bem mais cedo.

Bem, pior que fazer tarde é não fazer, e eu finalmente fiz. E o resultado?

Comecemos por lembrar que a internet é uma rede de malha muito fina e por isso apanha quase tudo, o que interessa e o que não interessa. E foi muita coisa apareceu ligada ao nome em causa. Deu para perceber imediatamente que o nome não é assim tão incomum no universo lusófono. Mas nestas coisas nunca se pode desistir cedo e a perseverança geralmente paga. E aqui também pagou bem!

Após algum tempo a ler sobre personagens com o nome igual ao do Avô, mas sem qualquer outra semelhança, lá apareceu uma pérola, que afinal de contas tinha sido publicada n’O Regional, um dos jornais locais de S. João da Madeira.

“O Sr. Francisco, como toda gente sabe, é uma pessoa bondosa, de educação cristã. Foi um empresário que proporcionou empregos às famílias são-joanenses. Contribui para o progresso desta terra. Colaborou, durante décadas, com as várias instituições de solidariedade social, com as associações desportivas, culturais e recreativas do concelho, dando importantes donativos, sem se preocupar em saber quais as conotações políticas e religiosas das mesmas. O senhor Francisco Mateus mereceu sempre – e continuará a merecer certamente – o respeito e a admiração dos são-joanenses pela sua bondade, pela sua postura, pela sua rectidão como pessoa de bem e pela grandeza do seu carácter.”

O elogio é rasgado e honesto. E até é melhor do que isso… é verdadeiro. Ter sido um amigo e admirador do Avô a escrever não diminui o seu valor, porque nos dias que correm, nem os amigos escrevem assim sobre os seus amigos, a não ser que estes sejam verdadeiramente excepcionais. Tal como o Avô Mateus.

Estas palavras bem podiam ser um sumário executivo do livro. Talvez até as cite no último capitulo que já estou a escrever. São um olhar isento (ou seja, sem o incontrolável preconceito de um neto que acha que o seu Avô era o maior… e o mais bonito) sobre a pessoa que era o Avô e sobre o seu legado.

O autor do tal elogio rematou-o com uma observação curiosa:

“Talvez por o senhor Francisco Mateus nunca se ter posto em bicos de pés para ser notado, nem ter participado nunca em manifestações de carácter político, se tenham esquecido dele. Mas não todos. Apenas os que são de curta memória.”

E é por isto que estas notícias são escritas, e este blog, e o livro. Para distribuir gratuitamente um antídoto contra a falta de memória.

Obrigado Ade pelas palavras.

Obrigado Avô por as mereceres. Foste o maior (e o mais bonito…)

F. Mateus com uma boa postura (data incerta, lugar incerto com neve)

Por esta altura, os seguidores mais dedicados do blog – que podem ser poucos, mas bons – já perceberam que uma promessa foi quebrada. Num post anterior assegurei que a primeira versão do livro estaria terminada até ao final de Março, mas agora que Março passou e Abril não apresenta sinais de abrandar, o livro permanece inacabado. Pela falha apenas posso apresentar uma justificação (algo) medíocre.

Não querendo prosseguir pelo caminho da desresponsabilização – porque uma promessa quebrada é sempre uma promessa quebrada – avanço com a mais elementar justificação: falta de tempo. O aumento do volume de trabalho e a agitação caseira tem reclamado quase todas as horas do dia. O pouco que sobra tem sido dedicado a pequenos projectos que entretanto (e inesperadamente) apareceram. Todos juntos, ou à vez, estes factores contribuíram generosamente para a quebra da promessa.

Mas nem tudo são notícias menos boas. A quebra de promessa não significa que nada se fez durante este período. Pouco se escreveu, mas muito foi feito. Parte do trabalho feito foi já aqui referida anteriormente.

A esse, acresce a procura de informação para fazer crescer a árvore genealógica do Avô Mateus (algo que a seu tempo será aqui apresentado) e outros tantos detalhes sobre o percurso do Avô (alguns adicionados recentemente à Viagem pelo Tempo). Nuns e outros, a ajuda da família e amigos tem sido valiosa.

Entretanto tenho conseguido aproveitar o tempo que já não sobra para ler um livro cheio de bons conselhos para quem quer escrever sobre histórias de família: Tracing Your Family History de Anthony Adolph. Nem a propósito!

Resta finalizar sem mais promessas, apenas com a manifestação de intenção de terminar a tal versão “rascunho” dentro de pouco tempo.

Por vezes o esforço de procura é longo e nem sempre bem sucedido. Na melhor das hipóteses lá se encontra um documento, uma carta, ou uma fotografia que se suspeitava existir, mas às quais se tinha perdido o rumo. Outras vezes são estes fragmentos do passado que nos encontram; aparecem no meio de coisas insuspeitas, em estantes poeirentas e gavetas esquecidas. Mas o melhor é mesmo quando nos vem ter à mão, pela mão de outras pessoas. À surpresa de tão inesperado achado acresce, quase sempre, a originalidade do artigo.

Pode parecer que ando a fazer colecção de itens relacionados com o Avô. E se calhar ando mesmo. E o último que adicionei á compilação foi oferecido pelo primo Xico, juntamente com o sorriso gigante de quem sabe que está a ofertar algo muito valioso. Pela sua originalidade e interesse, decidi colocá-lo aqui.

É uma boa memória, a do Sr. Mateus. O Avô Mateus sempre foi o Avô para nós, mas para muitas pessoas ele era o Sr. Mateus, um empresário e homem de negócios (de sucesso, pode-se adiantar). Ao contrário de muitos outros homens de negócios, que vingam na vida e são conhecidos (e definidos) pelos seus negócios, os do Avô são um detalhe que apenas acrescentam algum interesse adicional á sua vida. Ainda assim, teria sido impossível omitir esta faceta no livro, e por isso escrevi em tempos um capítulo sobre o tal Sr. Mateus, o empreendedor. Desde barbeiro a construtor civil, está lá (quase) tudo. Ou pelo menos muita coisa.

Foi um capítulo interessante de escrever, sobretudo porque não senti a mínima pressão de dizer tudo o que o Avô fez ou enumerar todos os negócios que teve. Do ponto de vista dos netos, a partir do qual o livro é escrito, o Avô continuaria a ser o maior, tivesse ou não sucesso nos negócios. E assim este capítulo é uma espécie de bónus no livro. E dar um bónus é sempre bom.

Por agora fica a recordação do Avô na sua faceta de construtor, e a lembrança das suas incursões nas obras, mazelas resultantes dessas aventuras, e das lições que nos dava sobre cofragens, assentamento de tijolo, pés-direitos, reforço das vigas e derivados.

Foi uma forma diferente de ver um filme, a de sábado à tarde. Não havia a escuridão da sala de cinema ou a mudez da assistência, nem a habitual história ficcionada, romanceada ou simplesmente inventada. A sala estava acesa com a luz que vertia da janela gigante, os meninos corriam e riam por todo o lado, a conversa enchia o ar. O filme, feito de histórias reais que se ligavam em trama apertada no tecido do passado, estava diante dos nossos olhos e ao alcance das nossas mãos, espalhado em cima da grande mesa que servia de tela. Este filme aconteceu, via-se nas centenas de fotografias e outros tantos documentos que falavam aos nossos olhos, através dos factos documentados e com as emoções que emanavam das cartas. Era um filme que jamais algum cinema poderia ter em cartaz.

Vimos este filme no caloroso conforto da sala da tia Micaela. Foi uma tarde magnífica que consumou a promessa de uma visita para revisitar o passado. E foi muita a informação recolhida para o livro nesta tarde. Décadas de história contavam-se à nossa frente nos factos espalhados em certidões de notário, registos, óbitos, escrituras e incontáveis cartas de encorajamento, consolo e de calorosas discussões. Conseguimos desenterrar verdadeiros tesouros de datas, nomes, locais e momentos.

Grande parte dos documentos relacionava-se com a fundação e tempos primordiais do Centro Bíblico e Acampamentos de Esmoriz (CBAE, no seu nome original), e com as controvérsias doutrinárias que eclodiram dentro da Igreja Evangélica de S. João da Madeira, bem no início da década de 70. O papel activo do Avô em ambos os assuntos era evidente nos documentos. Os bons amigos, o Sr. Timóteo e o Sr. Joel, também lá estavam, lado a lado com o Avô, presentes com o mesmo empenho e tenacidade. Curiosamente, também lá estava um outro bom amigo – o Walter Alexandre – igualmente com um papel de relevo.

As fotografias não eram menos cativantes e algumas delas vieram engrossar o lote de imagens coleccionadas para o livro e blog. Entre estas, contam-se algumas particularmente interessantes (e a pedir para serem divulgadas). São imagens que revelam o lado de viajante internacional do Avô, numa visita a Israel em 1979. A evocação do passado distante do Antigo Testamento, tão forte naquelas fotografias, trouxe-me á memória a ancestral bênção sacerdotal do povo de Israel, e que me parece adequada à vida do Avô.

“O Senhor te abençoe e te guarde; Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.” (Números 6:24-26)

No final daquela tarde fiquei preso às imagens que vi, a pensar nas histórias que contam e naquelas que ocultam. A grande história de uma vida cheia é espantosa; a beleza dos detalhes não é menos impressionante.

Sinto o dever e a responsabilidade de captar parte desse brilho no livro.

P.S. Shalom aleichem – Saudação hebraica que significa “A Paz seja contigo”

Achei que seria adequado compensar a fidelidade dos leitores deste blog com a estimulante notícia de mais um capítulo terminado! Este capítulo demorou a ser escrito mais que o habitual por dois motivos. Em primeiro lugar, pela disponibilidade de tempo; ou da falta dela, para ser mais exacto. Para o finalizar foi necessária a velha estratégia de recorrer à ajuda das horas mais longas da noite. O segundo motivo é bem mais relevante. Este capítulo é central na história, não porque divide o livro em dois hemisférios de igual número de folhas, mas porque descreve o evento mais importante da vida do Avô.

O titulo provisório desta secção – O (Re)Começar da Vida – dá o mote ao que se segue: a narrativa de como aos 28 anos, casado e com dois filhos, o Avô começou a viver. Sem querer avançar muito, ficam aqui algumas linhas, caso algum leitor não saiba ao certo do que se fala.

“…nesta nova vida, o medo de Deus viria a dar lugar ao temor e admiração, a vontade de obedecer à Sua vontade substituiria a obrigação de o fazer, e a esperança na vida eterna esmagaria a incerteza do destino final da alma.”

Entretanto a Linha Temporal aqui no blog foi actualizada e ligeiramente corrigida, tal como um dos capítulos do livro que descreve as nossas aventuras no carro do Avô. Em relação a este, deparei com uma curiosa contradição quando terminei a primeira versão, que já aconteceu há algum tempo, mas ainda assim achei interessante partilhar. Depois de ter escrito um capítulo onde a habilidade do Avô ao volante é exaltada, encontrei a fantástica fotografia que está abaixo, e onde se vê o Avô a tentar tirar o carro de uma vala. Foi um acidente sem precedentes e repetições. É de salientar a postura calma da Avó e o seu olhar curioso. Parece mesmo esboçar o sorriso de quem pensa as triunfantes palavras: “eu avisei…”

 

"Carro na Valeta" - Manobra de Francisco Soares Mateus (circa 1965)

No meio de incontáveis recordações do Avô sobressaem algumas pelo seu brilho especial, tal como o cintilar intenso de algumas estrelas as destacam do povoado mar negro de luzeiros. Algumas são de momentos únicos, outras apenas de momentos comuns que, por algum motivo, deixaram uma impressão mais forte no instável universo das memórias.

Lembro-me com particular limpidez do dia em que o Avô me telefonou a convocar para um encontro no seu escritório. Tinha algo importante para me mostrar. O tom animado da sua voz denunciava ser coisa interessante e agradável. Quando cheguei ao escritório pouco depois, encontrei o Avô com o seu habitual sorriso de marca. Mas naquele dia havia algo mais no seu sorriso, uma certa efervescência expectante. O Avô estava animado com o que quer que fosse que tinha para mostrar. Após o nosso habitual cumprimento de beijos e puxares de orelhas simulados, um pouco mais apressado naquele dia, ele abriu uma das gavetas da sua secretária e tirou de lá… uma folha de papel!

Confesso que não fiquei surpreendido. Fotocópias não são propriamente objectos que causam impressões fortes. Mas o sorriso persistente sugeria que aquela folha trazia alguma surpresa. E assim foi. Era uma cópia do documento original do contrato de arrendamento da pequena garagem onde a comunidade da Igreja Evangélica de Cucujães se fixou e onde permanece até aos nossos dias. Era um fragmento da história da nossa comunidade; ligava as origens a uma data, e o nome do Avô a ambas.

A partilha daquele documento foi um acto de cumplicidade no esforço de estabelecer a veracidade do relato da história da nossa comunidade. Ainda que não acreditasse que um neto pudesse colocar a palavra de um avô em causa, o Avô sentiu a necessidade de validar a sua com este documento. Agora pode parecer um pouco despropositado, mas na altura o Avô enfrentava o descrédito de algumas pessoas da comunidade que tentavam apagar o seu nome da fundação e do trabalho original. É impossível separar a história do Avô Mateus da história da Igreja Evangélica de Cucujães porque fazem parte uma da outra. O Avô foi um dos membros fundadores desta comunidade e a sua assinatura no contrato inicial de arrendamento do espaço atesta a sua posição de pioneiro.

A cópia deste documento andou muito tempo perdida no meio de tantos outros segredos nas minhas gavetas. Durante todo esse tempo sempre a procurei sem sucesso e cheguei a acreditar que a tinha perdido. Curiosamente reencontrei-a há alguns meses na companhia de algumas fotografias e cartas mais antigas. Parece que aguardou pacientemente pelo momento certo de se deixar encontrar.

Escusado será dizer que todas estas histórias vão figurar no livro, mas nem sempre com o mesmo detalhe. Infelizmente alguns dos seus contornos foram esbatidos pelo esquecimento dos anos.

Continua intenso o esforço de encontrar tempo para terminar o primeiro rascunho do livro. Entretanto percebi que seria necessário um capítulo adicional de fecho, não mais na forma de memórias ou histórias, mas de outra natureza.

Já tenho dedicado muito esforço mental a este capítulo e, embora já tenha uma ideia clara sobre o conteúdo, ainda não escrevi uma linha. Como tudo ainda está em aberto nesta matéria, podem sempre surgir novas ideias ou novos conteúdos. E foi o que aconteceu estes dias.

Recebi por correio uma encomenda há muito esperada – nada mais nada menos que os cadernos de notas de Leonardo Da Vinci em 3 volumes profusamente ilustrados. Algo chamou a minha atenção assim que folheei o primeiro livro. No meio de outras tantas reflexões estavam as seguintes linhas:

“(…) nada é mais passageiro que os anos, mas aquele que semeia virtude colhe honra.”

Pareciam mesmo estar ali é espera de serem encontradas. Percebi imediatamente que as teria de citar no livro porque:  (1) ecoam as palavras do livro de Provérbios (largamente citado ao longo de todo o trabalho) e são uma curiosa transposição da advertência “quem semeia ventos, colhe tempestades” do profeta Oseias; (2) adaptam-se perfeitamente ao Avô Mateus.

Afinal de contas parece que as primeiras linhas do último capítulo acabaram de ser escritas.

Aos poucos o livro vai avançando, não ao ritmo desejado, mas na cadência estabelecida por uma vida cheia de outras tantas coisas para fazer. O final está à vista e esta visão é, ao mesmo tempo, frustrante e motivadora. Não faço promessas mas deixo uma declaração de intenção – a de finalizar os capítulos em falta até ao fim de Março. Começa a contar já…

Ritmo lento não significa falta de investimento no projecto, e por isso ficam aqui duas grandes descobertas recentes (uma vez mais do fantástico espólio compilado pelo Tio Josias). São fotografias de família tiradas durante a década de 60. Na primeira, tirada em casa do Avô no seu aniversário a 29 de Setembro de 1965, estão em falta o Tio Manuel e o Tio Joaquim, que na altura estavam na guerra no Ultramar. Na segunda, tirada em estúdio a data incerta, está a família completa. Ou quase… Um olhar atento revela que o Tio Manuel (estrategicamente situado entre o Avô e a Avó) tem as proporções ligeiramente exageradas. E isto porque na altura ainda estava no Ultramar e a sua imagem foi adicionada à fotografia original. Está quase perfeito, o que para uma época em que tudo se fazia à mão e a olho, revela um trabalho excelente.

Espero que apreciem. São duas jóias familiares. Talvez acabem ambas no livro.

Festa de aniversário na casa do Avô Mateus (da esquerda para a direita: Daniel, Sara, Avô Mateus, Avó Eugénia, David, Lídia, Filipe e Josias)

Família Mateus na década de 60 (da esquerda para a direita; fila de trás: David, Joaquim, Avô Mateus, Manuel, Avó Eugénia e Daniel; fila da frente: Josias, Filipe, Lídia e Sara)

Quando tudo parece ir bem e vida promete anos longos e cheios, somos bruscamente agredidos pela morte que assalta e ataca, ofende e humilha, separa e destrói, sem que possamos resistir à sua investida ou atrasar o seu avanço. Inesperadamente, a morte agrediu a nossa família e reclamou a vida do primo Alexandre.

No meio desta perda injustificada, assiste-nos o conforto das promessas do amor e presença de Deus e a esperança que a fé em Jesus nos garante. Ficamos com estas promessas e garantias, e uma vasta nuvem de boas memórias do nosso primo.

Os momentos passados entre os primos e o Avô combinam algumas das recordações mais fortes entre as memórias que juntei desde o início deste projecto. E por isso tive de escrever sobre elas e sobre os acontecimentos que as compõem. Num capítulo em particular, relembro os tempos que íamos a casa do Avô dormir e tudo o que isso significava para nós. Embora este episódios envolvam muitos dos primos, as imagens mais nítidas que tenho desses tempos são do Alexandre. Foi com ele que passei mais tempo na casa do Avô. Em conjunto criamos uma intimidade e cumplicidade com o Avô que vencia a barreiras das idades. Fazíamos a meditação com ele e, já depois de o deixar a dormir no seu quarto, entregávamo-nos à conversa que se estendia pelas horas mais longas da noite. Éramos companheiros numa viagem em que partilhávamos segredos, alegrias e receios, sem qualquer reserva.

Agradeço a Deus a memória deste passado partilhado com o Alexandre e pela oportunidade de o ter registado no livro. Não podia agora deixar de partilhar o esboço deste capítulo, que foi um dos que mais me emocionou a escrever. Embora não consiga transcrever o detalhe e intensidade das memórias que guardo do Avô e do Alexandre, acredito que pelo menos a evocação dessas imagens seja de algum conforto para quem ler.

Capítulo 12 – A Fresca Aragem da Noite (draft)

A morte investe contra o nosso corpo mortal, mas não tem poder para reclamar a alma daqueles que, pela fé em Jesus, a entregaram nas mãos de Deus. Tal como o Alexandre fez um dia…

“Jesus então declarou-lhe: Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver.”
(João 11:25)

Embora o início da nova estação seja hoje marcado pelo solstício de Inverno, o frio e chuva já a vem anunciando faz algum tempo. É nestes dias cinzentos e tristes que emergem as memórias da estação quente e dos seus longos dias de sol. Foi no espírito destas lembranças que finalizei mais um capítulo do livro, talvez um dos que mais demorou a ser redigido. Comecei a escrevê-lo no auge do Verão passado, sentado numa cama de uma das camaratas do Centro Bíblico de Esmoriz, banhado por um sol glorioso e refrescado pelo vento de norte que invadia o espaço.

As ideias iniciais foram amadurecendo durante os meses que passaram e, aos poucos, foi surgindo uma ligação evidente entre o Avô Mateus e as memórias (quase perfeitas) que guardo das semanas de acampamento dos verões passados naquele local. Numa aproximação mais elementar, pode-se dizer que estas memórias só existem por causa do trabalho do Avô e alguns amigos. Foram eles que em 1967 iniciaram a construção do acampamento, certamente com uma clara visão do futuro, mas ainda assim longe de imaginar o verdadeiro impacto que teria na vida de milhares de pessoas.

Este foi um dos capítulos que mais prazer deu escrever, ainda que não tenha sido o mais fácil. Descobrir o papel do Avô Mateus na construção do CBE e na sua manutenção ao longo de décadas foi uma descoberta tardia para mim e para os primos. Mas foi certamente uma das mais incríveis. Esta é talvez a obra do Avô que mais orgulho me dá.

O Avô Mateus fez uma casa na praia, não para si ou para os seus. Fê-la para todos. Por isso dei a este capítulo o sugestivo nome de “Uma Casa na Praia.”

Obras de construção do Centro Bíblico de Esmoriz

É verdade. Está quase a chegar ao fim o primeiro rascunho do livro. O silêncio que se instalou aqui no blog nas últimas semanas não foi de quietude. Deveu-se, antes, ao canalizar do pouco tempo disponível para a escrita do livro. O resultado é mais um capítulo terminado – um dos restantes 3 por finalizar. O capítulo agora concluído designa-se “Mais Perto Quero Estar”, numa óbvia alusão ao hino que tantas vezes ouvimos o Avô Mateus cantar. O capítulo começa numa manhã Domingo, mas não uma qualquer; na fria manhã de um Domingo em Novembro de 2008.

Entretanto finalizei também um primeiro esboço do Prefácio do livro. Comecei a escrevê-lo durante uma tarde passada no aeroporto de Frankfurt, enquanto espera ligação para Atenas, há umas semanas atrás. Sinto que ainda falta ali qualquer coisa, pelo que uma versão final do prefácio será mesmo a última coisa do livro a escrever.

Os dois capítulos em falta já estão também em processo de escrita e, se tudo correr pelo melhor, deverão estar concluídos dentro de algumas semanas. Depois faltará incorporar parte da nova informação coleccionada com a ajuda do blog. Feito isto, o primeiro rascunho do livro terá então chegado ao fim.

Resta ainda a salientar uma nova entrada na página “Momentos.” É um breve episódio passado no antigo Mercedes do Avô Mateus, relatado pela neta Sara. Como quase todos os momentos passados com o Avô naquele carro, este episódio é fantástico. Vale a pena visitar esta secção para o ler.

avo_eugenia_jovem

Se ainda estivesse entre nós, a Avó Eugénia celebraria hoje 90 anos numa festa partilhada com um dos filhos, o Tio David. Infelizmente, a Avó partiu no ano do seu 50º aniversário, pelo que faz hoje também 40 anos desde o dia que celebrou o seu último aniversário.

As referências à Avó Eugénia têm sido frequentes no decurso da escrita do livro. Embora ela tenha desaparecido cedo, manteve-se de alguma forma presente na vida do Avô até ao fim dos seus dias. Apesar das tentativas, ainda não consegui agregar um relato suficientemente organizado da vida do Avô Mateus ao lado da Avó. A falta de informação tem-me levado a desenhar com a imaginação os espaços deixados em branco pela falta de factos.

Por vezes imagino como teria sido a vida da nossa família se ela tivesse ficado ao lado do Avô por mais tempo. A minha maior interrogação, no entanto, está em saber como teria sido a relação entre os netos e a Avó. Sendo impossível de determinar, não é de todo impossível imaginar que teria sido uma experiência incrível. Disso não há a menor dúvida.

Às vezes sonho como seria entrar na cozinha do Avô e encontrá-lo lá com a Avó a cozinhar, receber deles os calorosos beijos de avós, sentar-me à mesa a comer ao seu lado, e sentir o olhar intenso que só as avós fazem quando os netos se deliciarem com a sua comida.

Olhando agora para trás e lembrando o nosso relacionamento com o Avô, é evidente que ele se esforçou por compensar a falta da Avó, dando-nos o amor e o afecto que teríamos encontrado nela.

A avaliar pelas recordações que ficaram, a Avó foi uma pessoa distinta em muitos aspectos, na sua simplicidade, beleza, simpatia mas, acima de tudo, na sua entrega aos outros. Dizem que era um exemplo de amor – uma manifestação simples e pura do amor de Deus.

As saudades de quem a conheceu devem ser imensas. Pelo menos a julgar pelas saudades de quem nunca a conheceu…

Talvez seja inexplicável como coisas infelizes nos podem fazer lembrar outras opostamente alegres. Talvez não passe de uma rara contradição. A semana passada, rica em tempo de antena daquele que já é conhecido como o idoso mais rancoroso de Portugal, trouxe consigo uma dessas contradições. Apesar da avançada idade do nosso distinto Nobel da Literatura, continua a mostrar apetência para surpreender (pela negativa) quase toda a gente.

Confesso que foi apanhado de surpresa. É certo que as suas palavras, atulhadas de falsa ignorância e intelectualidade desonesta, causam algum repúdio. Ainda assim, ao olhar para ele, para a sua postura e as suas linhas de rosto, e ao ouvir as suas frases abafadas nas últimas palavras, comecei aos poucos a desenvolver um contraditório sentimento de empatia.

Não demorei a perceber o motivo. As características evidentes da avançada idade fizeram-me lembrar o Avô Mateus. Aos poucos, o que era infeliz e triste foi dando lugar a uma boa recordação que, por breves momentos, aliviou a constante saudade do Avô. Mas as afinidades entre o Saramago e Avô Mateus ficaram-se por aí. Partilhando os jeitos e alguma postura da velhice, tudo o resto era divergente.

O Avô Mateus era dono de uma beleza rara. Os seus olhos azuis brilhavam e o seu permanente sorriso quente e genuíno cativava qualquer pessoa. O mesmo não se pode dizer do Saramago, dono de uma expressão pesada e feições agravadas por uma leve atitude de fúria. O Avô irradiava amor e tinha um sentido de humor excepcional; o senhor da televisão parecia imanar raiva e não ter um resquício de simpatia. Parecia até nem saber rir. O decano Saramago tem a sua obra lida por milhões de pessoas em todo o mundo. É, sem qualquer margem para dúvidas, uma personalidade de renome mundial. Na sua recatada fama, o Avô Mateus apenas era conhecido por um grupo modesto de pessoas. A sua obra, que o destacou claramente dos seus pares, foi ainda assim despretensiosa.

Como o Avô Mateus, incontáveis outros trilham o percurso dos seus dias sem reconhecimento internacional, fama ou outra qualquer distinção excepcional. No entanto, a sua dedicação a Deus e ao próximo, fazem com que o fruto da sua vida inspire, influencie e transforme a vida de milhares de pessoas, ainda que a grande maioria nunca venham a conhecer o seu nome. O Avô Mateus não escreveu obras literárias para levar a sua mensagem às pessoas. Em lugar disso, fez da sua vida uma obra – um poema de Deus – lido por todos que o conheceram. Não foram as suas palavras que moveram, foi a sua vida, o seu exemplo e o seu testemunho. Nunca apregoou a sua própria doutrina ou as suas ideias, mas unicamente a mensagem do Evangelho. Nunca foi movido pela raiva, mas sempre pelo amor. O Saramago é um pensador; o Avô Mateus era um sábio.

Ao ouvir o Saramago atacar tudo e todos que não atendam ao seu próprio credo, lembrei-me uma vez mais do provérbio que despertou a vontade de querer escrever um livro de memórias do Avô: “Os que seguem Deus são como uma árvore de vida.” Não pude também deixar de lembrar as primeiras palavras que escrevi para o livro, dedicadas a estas árvores de vida e ao seu valor. Escolhi para título deste capítulo inicial a expressão “Sobre Homens e Árvores.” Se escrevesse igual obra sobre o Saramago, teria que modificar este título para “Sobre Homens e Cactos.”

Na aridez que caracteriza tantas vezes a nossa existência, tal como nas paisagens desoladas de um deserto, os cactos são uma visão comum, um objecto de uma desesperante monotonia. Pouco mais oferecem que espinhos e uma sombra ridícula. A sua proximidade é desaconselhada, como advertem os seus aguçados picos. As árvores, por outro lado, são sinais de vida e esperança. À sua sombra o viajante, cansado e batido pelo sol impiedoso, encontra alívio. Nos seus frutos sacia a fome e sede. As árvores dão alento para continuar a longa e difícil jornada. Os cactos enfatizam o desespero.

O Saramago é um cacto. A sua presença é notada e a sua voz ouvida, mas nada tem para oferecer a quem procura consolo ou busca a verdade. Só se aproxima dele quem é suficientemente louco para receber um doloroso abraço. As suas palavras ferem qualquer um. As árvores gostam da proximidade, e juntas fazem um oásis. Aos cactos está destinado o isolamento.

O Avô Mateus era tudo aquilo que o Saramago nunca virá a ser – uma árvore de vida. O prémio pelas suas obras, atestado por Deus e não homens, é infinitamente superior a um Nobel. O Avô Mateus era um homem humilde com uma vida simples. Com a sua simplicidade e humildade sempre desarmou todas as aparências de importância dos “Saramagos” que com ele se cruzaram.

Teria sido interessante assistir a uma conversa entre ele e o Saramago.

“Deus escolheu aqueles que os homens tinham por ignorantes para envergonhar os sábios e aqueles que os homens tinham por fracos para envergonhar os fortes. Deus escolheu os que no mundo não têm importância nem valor para deitar abaixo os que parecem importantes.”
(1 Coríntios 1:27,28)

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Esta fotografia, tirada o ano passado no dia de aniversário do Avô, captou o raro momento de alegria absoluta que acontece quando o amor explode e une dois corações distanciados 90 anos.  Mais tarde, ao ver as fotografias daquele dia, percebi que o Avô Mateus ainda teve a invulgar oportunidade de se apaixonar no fim do seu tempo. Apaixonou-se por todos os bisnetos e fez questão de viver e mostrar esse amor.

Para lembrar esse amor, escrevi um curto capítulo designado de Amores de última hora, uma débil tentativa de cristalizar essas manifestações de afecto.

As férias foram óptimas para o trabalho do livro. Com mais algum tempo livre do que o habitual, surgiu a oportunidade de trabalhar em alguns capítulos que estavam já em avançado estado de concretização, na tentativa de os finalizar. Houve também oportunidade para finalmente começar outros capítulos que já andavam a ser escritos na mente há algum tempo.

Mas as férias trouxeram ainda algo mais… imensas oportunidades de conversa com familiares e amigos. Destes encontros saiu muito material para o livro: mais histórias, referências temporais e detalhes de outros tantos episódios. A tudo isto, junta-se ainda a descoberta de alguns documentos relevantes. Agora está tudo a ser devidamente analisado e processado para ser incorporado no livro.

Parte dessa informação recolhida será tema das próximas entradas do blog e irá ser utilizada para expandir a secção “Viagem pelo Tempo” do Avô. Por isso, mantenham-se atentos (e participativos).

Durante o mês de Agosto encontrei algo especial na minha caixa de correio – uma carta da Sociedade Bíblica de Portugal, assinada por um bom amigo, com um certificado de participação no Projecto A Bíblia Manuscrita em 2004. Como eu, milhares de pessoas receberam uma carta semelhante. Aparentemente, esta ocorrência em pleno mês de férias nenhuma relação parece ter com o Avô Mateus. Mas assim não é. Talvez poucos ainda se lembrem, mas a imagem do Avô Mateus foi utilizada na campanha de divulgação do evento. Não deixa de ser curioso que, alguém que tanto amor tinha pela Palavra de Deus, acabasse por dar a cara por ela.

Seria impensável falar do Avô omitindo esta faceta da sua personalidade. Foi seguramente uma das mais importantes, senão a mais importante. O seu conhecimento das escrituras era admirável e, entre outras coisas, sabia de memórias inúmeras passagens. A sua sabedoria nasceu e crescia das longas horas que passava a ler a Bíblia.

O que começou por ser um capítulo do livro com apenas algumas anotações sobre a relação do Avô com a Palavra, acabou por se transformar num dos mais extensos escritos até agora, o que em si é revelador da importância deste sentimento do Avô. Aos poucos, durante a escrita, umas recordações foram dando lugar a outras, acabando numa torrente de memórias em torno do amor do Avô pela Palavra. De uma forma natural, o capítulo ficou com o nome “O Amor pela Palavra.” Ainda há muito a acrescentar ao que já está escrito e, como tudo o resto no livro, este segmento fica á espera de contribuições.

Fotografia do Avô Mateus utilizada em 2004 na campanha publicitária do projecto nacional A Bíblia Manuscrita.

Fotografia do Avô Mateus utilizada em 2004 na campanha de divulgação do projecto nacional A Bíblia Manuscrita (© R. Mateus)

Aproveitei estes dias de férias aqui por SJM para visitar o quintal do Avô Mateus com os meninos. Como habitual, fomos invadidos por aquele sentimento de aventura assim que cruzamos os portões de casa do Avô, tal como se estivéssemos prestes a entrar em território desconhecido. O quintal do Avô sempre cativou os netos pela sua natureza exótica. “Um pequeno jardim secreto que sempre explorávamos com o mesmo entusiasmo e fascínio,” foi como me ocorreu registar no livro a nossa admiração pelo local. Curiosamente, este fascínio parece ter despertado naturalmente nos bisnetos, que sempre se entregam a aventuras e explorações quando lá andam.
Seguindo o ritual antigo dos netos, sondei demoradamente todas as árvores e arbustos à procura dos tão saborosos frutos que o Avô sempre teve no seu quintal. Constantemente na companhia do M & A, procuramos os frutos como se de um tesouro se tratasse. Todo o esforço foi compensado, como sempre, desta vez em deliciosos morangos, amoras, fisális, maças, laranjas e ameixas. Para fugir ao abrasador sol de Agosto, sentei-me com os meninos no alívio da sombra de uma das árvores, onde juntos e descalços fizemos um banquete do fruto da nossa apanha. Da boca da Abi saiu um espontâneo e inocente “obrigado vovô Mateus.” Nada poderia ter sido dito com mais significado. O Avô, tal como as árvores de fruto do seu quintal, continua a deliciar-nos com as suas memórias e os frutos da sua vida.
Por todas as aventuras passadas e presentes neste território tão fantástico, muitas delas em incursões lideradas pelo Avô, não podia deixar de parte esta Terra do Nunca no livro das memórias. Embora o capítulo sobre a casa do Avô e o seu jardim já esteja delineado, haverá sempre espaço para mais lembranças ou reflexões se estas surgirem. Fica desde já o desafio para todos.

Aproveitei estes dias de férias aqui por SJM para visitar o quintal do Avô Mateus com os meninos. Como habitual, fomos invadidos por aquele sentimento de aventura assim que cruzamos os portões de casa do Avô, tal como se estivéssemos prestes a entrar em território desconhecido. O quintal do Avô sempre cativou os netos pela sua natureza exótica. “Um pequeno jardim secreto que sempre explorávamos com o mesmo entusiasmo e fascínio,” foi como me ocorreu registar no livro a nossa admiração pelo local. Curiosamente, este fascínio parece ter despertado naturalmente nos bisnetos, que sempre se entregam a aventuras e explorações quando lá andam.

Seguindo o ritual antigo dos netos, sondei demoradamente todas as árvores e arbustos à procura dos tão saborosos frutos que o Avô sempre teve no seu quintal. Constantemente na companhia do M & A, procuramos os frutos como se de um tesouro se tratasse. Todo o esforço foi compensado, como sempre, desta vez em deliciosos morangos, amoras, fisális, maças, laranjas e ameixas. Para fugir ao abrasador sol de Agosto, sentei-me com os meninos no alívio da sombra de uma das árvores, onde juntos e descalços fizemos um banquete do fruto da nossa apanha. Da boca da Abi saiu um espontâneo e inocente “obrigado vovô Mateus.” Nada poderia ter sido dito com mais significado. O Avô, tal como as árvores de fruto do seu quintal, continua a deliciar-nos com as suas memórias e os frutos da sua vida.

Esboço feito durante a escrita do primeiro capítulo do livro - Sobre Árvores e Homens.

Esboço feito durante a escrita do primeiro capítulo do livro - Sobre Árvores e Homens.

Por todas as aventuras passadas e presentes neste território tão fantástico, muitas delas em incursões lideradas pelo Avô, não podia deixar de parte esta Terra do Nunca no livro das memórias. Embora o capítulo sobre a casa do Avô e o seu jardim já esteja delineado, haverá sempre espaço para mais lembranças ou reflexões se estas surgirem. Fica desde já o desafio para todos.

O Tio Zé (do Brasil)

O Tio Zé (do Brasil)

Entre os doze irmãos e irmãs do Avô, um sempre ocupou um lugar especial no seu coração – o tio Zé. E por isso não podia deixar de escrever sobre este relacionamento especial.

Há uns meses atrás, pedi à prima Alda que está no Brasil para tentar falar com o tio Zé, na tentativa de obter mais informação sobre o passado do Avô. Acabei por descobrir que o tio Zé escreveu em 2004 um pequeno livro com muitas das suas memórias, e que a prima Alda – sempre disposta a ajudar neste projecto – estava a fazer tudo para que um exemplar me chegasse às mãos rapidamente. Confesso que a espera de apenas algumas semanas foi longa, tal era o desejo de poder ler as memórias do tio Zé. Mas valeu a pena todo o tempo de espera!

Ontem, de uma forma inesperada, recebi finalmente o livro. E entretanto já o li. Nele, o tio Zé relata o percurso da sua vida, de uma forma simples e em traços largos. Como não podia deixar de ser, o Avô Mateus é mencionado e a informação que eu tanto desejava está lá. O tio Zé explica como o Avô Mateus se envolveu com os “evangélicos” e como ele próprio, num esforço de trazer o Chico de volta ao caminho da religião dominante, acabou também por se envolver.

Muitos elementos do livro do tio Zé serão uma ajuda preciosa na tentativa de traçar o percurso do Avô. Pela singularidade do percurso de vida de ambos, em tantas coisas semelhante, decidi dedicar um capítulo do livro aos dois irmãos – duas árvores de vida. O capítulo tem como título “O Chico e o Zé,” numa afectuosa alusão ao modo como eram tratados pelos irmãos. O capítulo já está escrito há alguns meses e vai agora ser significativamente melhorado com a ajuda do trabalho do tio Zé e a dedicação da prima Alda.

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O Chico e o Zé no seu último encontro a 1 de Outubro de 2007 à porta de casa do Avô Mateus

Avó Eugénia

Avó Eugénia

Nenhum dos netos teve o privilégio de conhecer a Avó Eugénia. Mesmo o mais velho de nós, o Daniel, o único que a Avó teve oportunidade de pegar ao colo e acariciar, era na altura muito novo para poder guardar qualquer impressão desses afectos. Ainda assim, a Avó faz parte da nossa história e da nossa vida. Crescemos a ouvir falar da mulher excepcional que era, o que não deixou de nos impressionar e inspirar. A julgar pelas palavras do Avô, tios e amigos, a Avó era uma pessoa amada e um exemplo do amor em acção – um amor que era sempre grande e sentido nas pequenas coisas do quotidiano.
A Avó foi o grande amor do Avô – a verdadeira história de amor da sua vida. Mesmo depois de ter partido continuou a moldar a personalidade do Avô. Falar do Avô sem lembrar a Avó é por isso impossível. Ela esteve sempre presente até ao fim dos dias do Avô, na sua mente e no seu coração, numa saudade crónica, em parte aliviada pela certeza do reencontro eterno.
A morte nunca os separou, nem as pequenas coisas da vida. O Avô continuou a sua depois da Avó partir e, como ele mesmo reconhecia, nem sempre da melhor forma no que respeita às coisas do coração. Mas as escolhas que tomou nessas matérias, e que tantas críticas atraíram, não foram por esquecimento desse amor primordial ou por desconsideração, mas antes pela confusão emocional que o assaltou depois da separação da sua amada. “O coração tem razões que a própria razão desconhece,” escreveu o brilhante filósofo e matemático Blaize Pascal. Como cristão esclarecido, ele sabia que a natureza humana leva-nos, inexplicavelmente, a trilhar alguns rumos invulgares. A razão humana pode nunca conseguir explicar o rumo do coração do Avô. O próprio Avô não conseguia.
Se algumas das vozes que se levantaram contra ele tivessem trocado o discurso da condenação pelo da consolação, talvez as coisas tivesses sido diferentes. Poucos tentaram perceber a tragédia de perder uma esposa de repente e ficar só com uma casa cheia de filhos para governar.
Seria impossível contornar estes aspectos ao escrever as memórias do Avô, especialmente o do papel da Avó Eugénia. Em relação a ela, socorri-me das memórias partilhadas de quem a conheceu e amou. As poucas que consegui coleccionar fazem-me querer saber muito mais. Dedico um capítulo do livro ao relacionamento do Avô e da Avó que designei de “1969” – o ano em que a Avó partiu e a vida do Avô e dos tios mudou radicalmente.
Tive a oportunidade de saber pela boca do Avô Mateus o que ele sentia pela Avó, num “segredo” revelado durante a festa do seu 84º aniversário. O segredo deixou de o ser naquele momento… o Avô tinha de o desvendar. E por isso incluí-o no livro.

Nenhum dos netos teve o privilégio de conhecer a Avó Eugénia. Mesmo o mais velho de nós, o Daniel, o único que a Avó teve oportunidade de pegar ao colo e acariciar, era na altura muito novo para poder guardar qualquer impressão desses afectos. Ainda assim, a Avó faz parte da nossa história e da nossa vida. Crescemos a ouvir falar da mulher excepcional que era, o que não deixou de nos impressionar e inspirar. A julgar pelas palavras do Avô, tios e amigos, a Avó era uma pessoa amada e um exemplo do amor em acção – um amor que era sempre grande e sentido nas pequenas coisas do quotidiano.

A Avó foi o grande amor do Avô – a verdadeira história de amor da sua vida. Mesmo depois de ter partido continuou a moldar a personalidade do Avô. Falar do Avô sem lembrar a Avó é por isso impossível. Ela esteve sempre presente até ao fim dos dias do Avô, na sua mente e no seu coração, numa saudade crónica, em parte aliviada pela certeza do reencontro eterno.

A morte nunca os separou, nem as pequenas coisas da vida. O Avô continuou a sua depois da Avó partir e, como ele mesmo reconhecia, nem sempre da melhor forma no que respeita às coisas do coração. Mas as escolhas que tomou nessas matérias, e que tantas críticas atraíram, não foram por esquecimento desse amor primordial ou por desconsideração, mas antes pela confusão emocional que o assaltou depois da separação da sua amada. “O coração tem razões que a própria razão desconhece,” escreveu o brilhante filósofo e matemático Blaize Pascal. Como cristão esclarecido, ele sabia que a natureza humana leva-nos, inexplicavelmente, a trilhar alguns rumos invulgares. A razão humana pode nunca conseguir explicar o rumo do coração do Avô. O próprio Avô não conseguia.

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O casal Mateus

Se algumas das vozes que se levantaram contra ele tivessem trocado o discurso da condenação pelo da consolação, talvez as coisas tivesses sido diferentes. Poucos tentaram perceber a tragédia de perder uma esposa de repente e ficar só com uma casa cheia de filhos para governar.

Seria impossível contornar estes aspectos ao escrever as memórias do Avô, especialmente o do papel da Avó Eugénia. Em relação a ela, socorri-me das memórias partilhadas de quem a conheceu e amou. As poucas que consegui coleccionar fazem-me querer saber muito mais. Dedico um capítulo do livro ao relacionamento do Avô e da Avó que designei de “1969” – o ano em que a Avó partiu e a vida do Avô e dos tios mudou radicalmente.

Tive a oportunidade de saber pela boca do Avô Mateus o que ele sentia pela Avó, num “segredo” revelado durante a festa do seu 84º aniversário. O segredo deixou de o ser naquele momento… o Avô tinha de o desvendar. E por isso incluí-o no livro.

“Quem arranjar uma mulher virtuosa, é como se tivesse encontrado um tesouro de alto valor. O seu marido tem confiança nela, e os recursos materiais nunca lhe faltarão. Nunca se tornará um empecilho para o seu esposo; pelo contrário, sempre o ajudará a vida toda. (…) Os encantos femininos podem enganar; a beleza não dura sempre. Mas uma mulher que ama e teme Deus, essa merece todos os elogios. Será louvada por tudo o que faz, e os seus actos virtuosos serão reconhecidos publicamente.” (Provérbios 31:10-12,30,31)

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Francisco Mateus algures no passado

Escrever um livro é uma tarefa motivadora quando o tema é interessante. Se o tema é fascinante, a tarefa torna-se quase sublime.  E temas fascinantes não faltam quando se fala de alguém com um carácter singular como Francisco Soares Mateus, mais conhecido por Avô Mateus, mas igualmente reconhecido como Sr. Mateus, Irmão Mateus, ou simplesmente O Mateus.

Sabendo do interesse de muitos amigos e familiares em preservar a sua memória, este blog pretende manter os futuros leitores a par do progresso da escrita do livro de memórias e, ao mesmo tempo, envolvê-los no processo de escrita, através da partilha de todo o tipo de informação sobre O Mateus.

O livro será uma colecção de histórias e memórias de alguém que se destacou como pessoa, amigo, pai, avô, irmão e, mais importante, como servo de Deus. A ideia do livro, assim como o seu título – Uma Árvore de Vida – nasceu no dia em que um neto se cruzou, não por acaso, com uma frase do livro de Provérbios no Antigo Testamento: ”Os que seguem Deus são como uma árvore de vida.” Num momento de rara lucidez, percebeu imediatamente que o seu Avô era uma dessas árvores.

Um álbum de memórias é uma melhor definição para este trabalho do que propriamente um livro. Entre inúmeras alusões ao passado do Avô Mateus (como é apresentado ao longo do livro), são as histórias, muitas delas de momentos pessoais Avô-neto(s), que mais se destacam.

Todos os comentários às mensagens adicionadas ao blog são bem-vindos, especialmente se relembrarem o passado d’O Mateus.

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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