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Ao fazer as malas para uma viagem podemos escolher o que levar. E o que deixar para trás. Não fazemos o mesmo com as nossas memórias. Elas viajam connosco para todo o lado. Dependem de onde viemos, e não para onde vamos.

Por vezes, no meio de uma viagem, algo nos faz lembrar outras viagens, outros tempos. Não há maneira de nos habituarmos à improbabilidade da recordação inesperada de certas memórias. E ainda bem, porque muitas delas são puramente excepcionais.

Entro no quarto de hotel, a milhas de casa, num outro país. Inicio de imediato a rotina do viajante – inspeccionar o alojamento que não causou uma boa primeira impressão. Nem segunda ou terceira. O estilo Vitoriano, algo apelativo, do exterior do edifício esconde a decoração retro-kitsch do quarto, que é feio, independentemente do ângulo que se olhe. Não é uma questão de ângulos, ou de gosto. É funcional, mas feio. Sem pensar, abro uma gaveta de uma peça de mobiliário que se assemelha a uma secretária, mas cuja função desconheço. Através da pequena frincha – porque nestas coisas nunca convém abrir mais que uma pequena frincha, não vá de lá saltar alguma forma animal com 3 ou mais pares de pedúnculos – e vejo letras douradas contra um fundo vermelho. A minha atenção está presa. Abro a gaveta mais um pouco, agora sem medos.

PLACED BY THE GIDEONS. Lembro-me imediatamente do Avô Mateus.

Faz agora sentido o pensamento sobre lembranças inesperadas?

Foi através do Avô Mateus que conheci este movimento que atravessa fronteiras e tem como objectivo superior fazer da Bíblia um bem comum e acessível a todos. Quem conhecia o Avô Mateus sabe o amor que tinha pela Palavra e ao quanto ele se entregava para que outros a conhecessem. Se havia um grupo de pessoas interessadas em fazer chegar a Bíblia aos outros, o Avô só podia estar do seu lado. Daí o seu envolvimento com os Gideões. (curioso, o nome em inglês soa bem melhor…)

Hoje é difícil imaginar que, noutros tempos, uma Bíblia poderia ser a única fonte de vida nas horas mortas de um quarto de hotel perdido no meio do nada. Entre deixar o olhar vaguear pelas paredes feias do aposento, ou deixá-lo percorrer o texto de um livro de fama duvidosa, muitos escolheram a segunda opção. Não se sabe ao certo o que terão lá encontrado. Deus?

Depois veio a televisão, e agora o laptop e o wireless. Distracção não falta. Mas apesar dela, e das paredes feias e do estilo repassado da decoração, a Bíblia continua na gaveta, pronta a ser encontrada e a revelar o Deus que espera ser também encontrado no meio deste mundo que, como este hotel, tem uma fachada que promete algo interessante, mas que depois de visto por dentro, é geralmente retro-kitch, independentemente do ângulo com que se olha. Porque não é uma questão de ângulos, ou de gostos. É mesmo assim.

Lembrei-me do Avô e do seu amor pela Palavra, sobre o qual já escrevi abundantemente. Percebo agora que sem a visão do mundo que ele nos passou, este não passaria de um local retro-kitsch (na melhor das hipóteses). E muito mais pequeno. Sem Deus.

Lembrei-me que tenho de acabar de escrever o livro rapidamente.

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Por esta altura, os seguidores mais dedicados do blog – que podem ser poucos, mas bons – já perceberam que uma promessa foi quebrada. Num post anterior assegurei que a primeira versão do livro estaria terminada até ao final de Março, mas agora que Março passou e Abril não apresenta sinais de abrandar, o livro permanece inacabado. Pela falha apenas posso apresentar uma justificação (algo) medíocre.

Não querendo prosseguir pelo caminho da desresponsabilização – porque uma promessa quebrada é sempre uma promessa quebrada – avanço com a mais elementar justificação: falta de tempo. O aumento do volume de trabalho e a agitação caseira tem reclamado quase todas as horas do dia. O pouco que sobra tem sido dedicado a pequenos projectos que entretanto (e inesperadamente) apareceram. Todos juntos, ou à vez, estes factores contribuíram generosamente para a quebra da promessa.

Mas nem tudo são notícias menos boas. A quebra de promessa não significa que nada se fez durante este período. Pouco se escreveu, mas muito foi feito. Parte do trabalho feito foi já aqui referida anteriormente.

A esse, acresce a procura de informação para fazer crescer a árvore genealógica do Avô Mateus (algo que a seu tempo será aqui apresentado) e outros tantos detalhes sobre o percurso do Avô (alguns adicionados recentemente à Viagem pelo Tempo). Nuns e outros, a ajuda da família e amigos tem sido valiosa.

Entretanto tenho conseguido aproveitar o tempo que já não sobra para ler um livro cheio de bons conselhos para quem quer escrever sobre histórias de família: Tracing Your Family History de Anthony Adolph. Nem a propósito!

Resta finalizar sem mais promessas, apenas com a manifestação de intenção de terminar a tal versão “rascunho” dentro de pouco tempo.

Um dos achados mais curiosos na tal visita ao passado em casa da Tia Micaela foi uma fotografia da década de 80. Assim que a vi percebi que teria de ser aqui publicada. Só era preciso um texto em conformidade com o momento.

Um destes dias desafiei um outro neto a escrever uma entrada aqui para o blog. Não dei qualquer sugestão quanto ao tema. O primo aceitou o desafio e escreveu.

A fotografia e o texto contam histórias relacionadas sobre um mesmo tema: as festas com o Avô. Foi mais do que pura coincidência. Foi providência. Aqui seguem ambos.

— ♦ —

As festas em família

Neto André

Uma das memórias que é impossível separar do Avô sempre foi a das festas.

A família desde sempre teve uma agradável aptidão por se reunir, qualquer que fosse a ocasião! Eram aniversários, casamentos ou simples almoços e jantares sem razão aparente, sendo que uma das imagens de marca, sempre foi uma ou duas violas que do nada sempre surgiam.

No entanto um dos momentos altos das reuniões em família, sempre foi o Natal!

Inicialmente a casa do Avô Mateus servia de local privilegiado para tudo acontecer e mais do que a comida, a memória mais remota que guardo, é estarmos na sala de estar da casa, esperando ansiosamente a chegada dos presentes, com o Avô sorridente sentado num dos sofás, divertido sem dúvida pela natural alegria e expectativa dos muitos netos que pululavam pela sala.

Memória de uma das festas de Aniversário do Avô Mateus (algures na década de 80)

O prazer que tínhamos em estarmos juntos, era acompanhado pela satisfação do Avô em ter a família reunida, onde sempre assumia o papel de patriarca, não que ele o impusesse, mas porque simplesmente lhe era inato. Todos nós sentíamos a sua presença como apaziguadora, unificando as várias gerações que se juntavam nesta época tão especial para todos, não só pelo que representa, mas também pela ausência dramática da Avó em outro longínquo Natal.

O Autor

Um certo e determinado neto em viagem ao passado do seu Avô

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