Do tempo de criança fica connosco uma elementar lição de vida. Tudo que construímos acaba, inevitavelmente, por ser destruído. É uma questão de tempo e das circunstâncias. Na praia construímos castelos de areia com a dedicação e envolvimento de quem está a construir uma coisa para a vida. Depois vem a água, ou o vento, ou o pé descuidado de alguém, ou o pé intencional, e o nosso castelo desaparece. E com ele os nossos sonhos e fantasias. E se não for nenhuma das anteriores, a simples inconsistência dos pequenos grãos de areia fará com que o nosso empreendimento não dure muito.
Crescemos e continuamos a construir castelos com o mesmo empenho, mas vamos percebendo que o que fazemos tem os dias contados, tal como nós.
O Avô Mateus sempre foi um construtor ao longo da sua vida – construiu relacionamentos, vidas, famílias, casas, prédios – e as suas qualidades nesta vocação melhoraram com a idade. E tudo que o construiu foi feito com este conhecimento implícito de que nada que o homem faz é indestrutível e eterno deste lado da vida. Ainda assim, ele construiu para durar.
No jornal da terra saiu a semana passada uma notícia a comunicar que o negócio de família iniciado pelo Avô há mais de meio século enfrenta a eminência de ser finalmente destruído. Da notícia saliento apenas o mais interessante, já que o resto não o merece:
Fundada há mais de 57 anos por Francisco Soares Mateus, a empresa adquire a forma actual em que o património e gestão da ARSOL passou a ser controlada pelos filhos, a partir de 1983. Dedicados à empresa desde muito jovens, os actuais sócios têm participado activamente na sua evolução, cujos aspectos mais marcantes se prendem com a diversão da produção implementada ao longo dos anos. Assim, até 1965, a sua actividade consistiu no fabrico de estores em madeira, altura em que foi introduzida a produção de estores em PVC. Em 1969, a ARSOL iniciou o fabrico e montagem de caixilharia de alumínio e anodização. Finalmente, em 1983, dá-se o arranque para o fabrico de tubos em PVC e acessórios, produtos que vieram a assumir um papel fundamental na expansão dos negócios da empresa.
As obras do homem morrem, mais cedo ou mais tarde, tal como ele. Mas não os frutos da sua vida; esses podem estender-se pela eternidade. E é por isso irrelevante se tudo que o Avô construiu venha a desaparecer, porque o fruto que ele deixou, tecido numa matéria mais consistente do que simples átomos, nunca desaparecerá.
Esqueci-me, deliberadamente, de um pormenor. Ao longo do seu percurso o Avô Mateus aprendeu algo importante. Aquilo que o homem constrói perece com ele; Aquilo que Deus constrói permanece. E por isso o Avô disponibilizou a sua vida para Deus construir através dela.


3 comentários
Comentários feed para este artigo
2010/05/18 às 8:27
Pedrito
não me esqueço do avô que começou a firma e de todos os que continuaram o trabalho, foram grandes anos e vitórias…tenho a certeza de que durante a minha juventude beneficiei muito dos frutos da empresa pois nunca me faltou nada…agora, as coisas estão a acabar…aliás, este país está a acabar também…desejo ficar com as boas memórias e estar sempre ao lado da família:)
Que Deus seja com todos…
obrigado pelo teu trabalho primo…
2010/05/18 às 10:29
um certo neto
Quando o cenário desaba ficam os actores. Vão as coisas e ficam as pessoas. Quando tudo isto desaparecer, e tudo o resto feito em pedra e papel, vamos olhar à nossa volta e ver que ficamos com o essencial e com o verdadeiro.
O maior empreendimento do Avô – a nossa família – vai permanecer de pé e é nossa a responsabilidade de o manter funcional e o fazer expandir. É isso que vale!
Obrigado Peter. O lado da família é o lado certo. O único lado para estar. Estou do teu lado…
2010/05/18 às 14:07
Pedrito
ainda hoje falei isso com o meu pai:)…por muitas voltas que a coisa pode dar, nós estaremos aqui…
Este domingo em Cucujães, na igreja foi lindo ver isso mesmo…familia:)
abraços