You are currently browsing the monthly archive for Maio 2010.
“Elementar meu caro neto,” teria dito o Avô ao filho do seu filho que se lembrou, ao fim deste tempo todo, que talvez fosse uma boa ideia fazer uma procura pelo nome do pai do seu pai na internet.
Ainda não me tinha lembrado desta e admito, com alguma vergonha, que assumi que nada relacionado com o Avô poderia ser encontrado na internet. E talvez seja escusado dizer que errei. Agora a pensar nisso, nem sei porque não escrevi as palavras “Francisco Mateus” num motor de busca e pressionei enter bem mais cedo.
Bem, pior que fazer tarde é não fazer, e eu finalmente fiz. E o resultado?
Comecemos por lembrar que a internet é uma rede de malha muito fina e por isso apanha quase tudo, o que interessa e o que não interessa. E foi muita coisa apareceu ligada ao nome em causa. Deu para perceber imediatamente que o nome não é assim tão incomum no universo lusófono. Mas nestas coisas nunca se pode desistir cedo e a perseverança geralmente paga. E aqui também pagou bem!
Após algum tempo a ler sobre personagens com o nome igual ao do Avô, mas sem qualquer outra semelhança, lá apareceu uma pérola, que afinal de contas tinha sido publicada n’O Regional, um dos jornais locais de S. João da Madeira.
“O Sr. Francisco, como toda gente sabe, é uma pessoa bondosa, de educação cristã. Foi um empresário que proporcionou empregos às famílias são-joanenses. Contribui para o progresso desta terra. Colaborou, durante décadas, com as várias instituições de solidariedade social, com as associações desportivas, culturais e recreativas do concelho, dando importantes donativos, sem se preocupar em saber quais as conotações políticas e religiosas das mesmas. O senhor Francisco Mateus mereceu sempre – e continuará a merecer certamente – o respeito e a admiração dos são-joanenses pela sua bondade, pela sua postura, pela sua rectidão como pessoa de bem e pela grandeza do seu carácter.”
O elogio é rasgado e honesto. E até é melhor do que isso… é verdadeiro. Ter sido um amigo e admirador do Avô a escrever não diminui o seu valor, porque nos dias que correm, nem os amigos escrevem assim sobre os seus amigos, a não ser que estes sejam verdadeiramente excepcionais. Tal como o Avô Mateus.
Estas palavras bem podiam ser um sumário executivo do livro. Talvez até as cite no último capitulo que já estou a escrever. São um olhar isento (ou seja, sem o incontrolável preconceito de um neto que acha que o seu Avô era o maior… e o mais bonito) sobre a pessoa que era o Avô e sobre o seu legado.
O autor do tal elogio rematou-o com uma observação curiosa:
“Talvez por o senhor Francisco Mateus nunca se ter posto em bicos de pés para ser notado, nem ter participado nunca em manifestações de carácter político, se tenham esquecido dele. Mas não todos. Apenas os que são de curta memória.”
E é por isto que estas notícias são escritas, e este blog, e o livro. Para distribuir gratuitamente um antídoto contra a falta de memória.
Obrigado Ade pelas palavras.
Obrigado Avô por as mereceres. Foste o maior (e o mais bonito…)
Do tempo de criança fica connosco uma elementar lição de vida. Tudo que construímos acaba, inevitavelmente, por ser destruído. É uma questão de tempo e das circunstâncias. Na praia construímos castelos de areia com a dedicação e envolvimento de quem está a construir uma coisa para a vida. Depois vem a água, ou o vento, ou o pé descuidado de alguém, ou o pé intencional, e o nosso castelo desaparece. E com ele os nossos sonhos e fantasias. E se não for nenhuma das anteriores, a simples inconsistência dos pequenos grãos de areia fará com que o nosso empreendimento não dure muito.
Crescemos e continuamos a construir castelos com o mesmo empenho, mas vamos percebendo que o que fazemos tem os dias contados, tal como nós.
O Avô Mateus sempre foi um construtor ao longo da sua vida – construiu relacionamentos, vidas, famílias, casas, prédios – e as suas qualidades nesta vocação melhoraram com a idade. E tudo que o construiu foi feito com este conhecimento implícito de que nada que o homem faz é indestrutível e eterno deste lado da vida. Ainda assim, ele construiu para durar.
No jornal da terra saiu a semana passada uma notícia a comunicar que o negócio de família iniciado pelo Avô há mais de meio século enfrenta a eminência de ser finalmente destruído. Da notícia saliento apenas o mais interessante, já que o resto não o merece:
Fundada há mais de 57 anos por Francisco Soares Mateus, a empresa adquire a forma actual em que o património e gestão da ARSOL passou a ser controlada pelos filhos, a partir de 1983. Dedicados à empresa desde muito jovens, os actuais sócios têm participado activamente na sua evolução, cujos aspectos mais marcantes se prendem com a diversão da produção implementada ao longo dos anos. Assim, até 1965, a sua actividade consistiu no fabrico de estores em madeira, altura em que foi introduzida a produção de estores em PVC. Em 1969, a ARSOL iniciou o fabrico e montagem de caixilharia de alumínio e anodização. Finalmente, em 1983, dá-se o arranque para o fabrico de tubos em PVC e acessórios, produtos que vieram a assumir um papel fundamental na expansão dos negócios da empresa.
As obras do homem morrem, mais cedo ou mais tarde, tal como ele. Mas não os frutos da sua vida; esses podem estender-se pela eternidade. E é por isso irrelevante se tudo que o Avô construiu venha a desaparecer, porque o fruto que ele deixou, tecido numa matéria mais consistente do que simples átomos, nunca desaparecerá.
Esqueci-me, deliberadamente, de um pormenor. Ao longo do seu percurso o Avô Mateus aprendeu algo importante. Aquilo que o homem constrói perece com ele; Aquilo que Deus constrói permanece. E por isso o Avô disponibilizou a sua vida para Deus construir através dela.
Durante os últimos tempos escrevo sobre o percurso inicial do Avô Mateus depois da sua loucura de entrar num “Salão protestante” e, imaginem só a alienação, se ter tornado protestante. São muitas as histórias em torno desta aventura, e ainda mais sobre as suas implicações, mas isso é matéria de livro.
Um dos aspectos que mais me tem atraído neste início de percurso é o envolvimento do Avô com outras pessoas de igual mente e espírito, em especial os que viriam a ser os bons amigos. Ainda não consegui muita informação de como vieram a conhecer-se e como o seu percurso foi trilhado em conjunto daí para a frente.
Tenho procurado mas não encontrado. E é aqui que tudo se torna mais interessante. Não encontro o que quero, mas encontro o que não espero. Um destes dias folheava um caderno de notas mais antigo e, inesperadamente – como tanta coisa no percurso da escrita deste livro -, encontrei uma folha subtraída a uma agenda com uma referência a um destes amigos do Avô, o Sr. Timóteo.
A página assinala o dia 23 de Janeiro de 1998 e contém unicamente uma curta frase:
O Sr. Timóteo já está com Adonai
Do resto da agenda não sei. Nem quis saber no final de 1998. Guardei apenas esta página porque numa linha apenas estava registada a coisa mais significativa daquele ano. Na altura não conhecia ainda as histórias partilhadas entre o Avô Mateus e o Sr. Timóteo, mas este era já um bom amigo, contra todas as probabilidades impostas pela significativa diferença de idades entra nós. Agora sei que na preocupação e interesse que ele demonstrava, por mim e os primos, pesava muito o facto de sermos netos do Mateus. Para o Avô e o Sr. Timóteo, e tantos do seu tempo, ser amigo de alguém implicava ser amigo da família.
O dia em que o Sr. Timóteo partiu foi um dia marcante para mim. Sei que foi ainda mais marcante para o Avô Mateus, porque se despediu de um companheiro de longa viagem.



Comentários recentes