Se ainda estivesse deste lado da vida, o Avô iria celebrar hoje o seu 93º aniversário. Como habitualmente, familiares e amigos estariam ao seu lado a festejar. Para que se saiba, a celebração nunca foi devido ao Avô completar mais um ano, mas antes pelo simples privilégio de o termos connosco durante esse período. Hoje é a primeira vez em décadas que este ritual não se vai repetir. Ainda assim, a data é lembrada para quem o Avô Mateus continua a ser uma presença constante nas suas mentes e corações.
Ao longo de décadas, enquanto a família crescia, o Avô Mateus esforçou-se por reforçar os laços familiares e manter uma unidade que desfiou todas as expectativas. Era o núcleo em torno do qual todos nós gravitávamos, o centro do nosso sistema solar, um sol que nos mantinha presos a si pela força atractiva do seu amor e nos iluminava com a sua luz. A sua presença orientou tantos e evitou que alguns, sem rumo, se perdessem num universo vazio. Acima de tudo, ele evitou que a família fosse um grupo disperso, desligado e disfuncional de pessoas. Ele lembrava-se constantemente de todos nós nas suas orações, e pedia a Deus para nos guardar, fortalecer e dar sabedoria. Para nós, o Avô era a presença visível de Deus na família, do seu cuidado e protecção, das suas incontáveis dádivas.
Não era difícil imaginar que se o Avô não estivesse presente, o nosso sistema familiar, na sua típica complexidade, começaria a perder a sua ordem aos poucos. Sem uma força gravítica suficientemente forte para manter os planetas numa órbita fixa, estes acabam por derivar pelo espaço. Com a partida do Avô e da força do seu amor, a família parece agora divagar insegura no vazio, sem rumo certo, sem um referencial para se orientar. E é por isso tão importante continuar a lembrar o Avô e aquilo que ele representava para nós.
Em relação ao seu aniversário, foi num deles que compôs um poema, um dos poucos registos pessoais e íntimos que deixou escrito. Colado durante anos nas costas de uma fotografia, esteve lá à espera de ser descoberto, o que veio a acontecer há pouco tempo. A fotografia foi tirada no último aniversário que o Avô celebrou na companhia da Avó. Estão lado a lado na sua casa, com o ar alegre de quem tem no colo o primeiro neto. É uma imagem interessante – umas das primeiras a cores do Avô – mas foi a grossura do papel da fotografia que mais me despertou o interesse. Por curiosidade, voltei a fotografia para ver que papel era aquele e, inesperadamente, encontrei um poema escrito pelo Avô no lado de trás.

Poema escrito pelo Avô Mateus no dia do seu aniversário a 29 de Setembro de 1984
Foi provavelmente uma das descobertas mais significativas desde que comecei a procurar fotografias e outros documentos relacionados com o Avô. No poema, o Avô compara o seu último aniversário ao lado da Avó em 1969, com o que vivia no momento que escreveu aquelas linhas em 1984. Quinze anos haviam passado e as saudades pareciam ser tantas como se tivessem passados apenas 15 dias. Hoje faz vinte e cinco anos desde que o Avô escreveu aquelas linhas, e quarenta desde que celebrou o seu último aniversário ao lado da Avó. Hoje, finalmente, pode celebrar de novo na sua companhia.
O poema é um lamento e é impossível sondar o que ia na alma do Avô. As suas palavras carregam uma atmosfera algo sombria, como se uma nuvem de saudade e tristeza toldasse a luz da esperança. As palavras acusam a dor da perda irreparável da companheira da sua juventude, da perda de uma parte de si mesmo. Independentemente das intenções, uma coisa é certa, o poema foi escrito com lágrimas. Neste mesmo dia, há dez anos atrás, numa longa conversa durante a sua festa, o Avô lembrou a Avó e disse-me: “No dia em que a tua avó morreu, a minha vida acabou, deixou de ter significado. Acabou a minha alegria.”
O Avô viveu até ao fim dos seus dias com esta dor crónica da alma – a saudade permanente da Avó – invadido por um desejo esmagador de a poder ver outra vez, de a abraçar e beijar, nem que fosse por breves instantes. Parece que a sua data de aniversário era uma forte lembrança dos anos que o afastavam da Avó.
Estes dois pensamentos revelam que o amor pela Avó sempre ardeu no seu coração. Ainda que íntimos, merecem ser revelados, somente porque confessam a sua fragilidade e, ao mesmo tempo, mostram a incrível força que o ajudou a aguentar a separação. E anunciam que foi um outro amor que eventualmente acabou por conquistar o seu coração e fazê-lo feliz – o amor de Deus.
“Põe-me como um selo sobre o teu coração, como uma aliança, permanentemente; porque o amor é forte como a morte…”
(Cantares de Salomão 8:6)

11 comentários
Comentários feed para este artigo
2009/09/29 às 14:53
Geninha
muitas saudades que tenho dele
2009/09/29 às 18:12
Carlitos
Saudades
2009/09/30 às 14:57
Pedrito
Não me esqueço mesmo dele:)…as recordações são muito boas e ainda por cima o meu filho (bisneto Josias) faz anos no mesmo dia…
2009/09/30 às 14:59
um certo neto
Não haverá uma fotografia dos dois?
2009/10/01 às 9:24
Anónimo
sim, há…vou enviar-te.
2009/09/30 às 15:02
Pedrito
Há sim…vou tratar disso este domingo, pois vou fazer uma visita surpresa a S. João (ups…já não é surpresa)
2009/10/02 às 20:21
Micaela
Tenho saudades de conversar com ele, cuidar e da companhia dele… Quanto mais o tempo passa mais saudades tenho… sinto falta…
2009/10/04 às 12:59
AndreM
neste ultimos aniversários tinhamos sp a sensação de q este seria talvez o ultimo q iríamos passar jtos :(
Mas mais do que recordar as saudades q temos da sua presença, recordo q ele sp mateve uma mente lúcida, comunicativa e sábia, q quase me fazia duvidar da veracidade da sua idade…lol…
2009/10/07 às 15:30
Xico
Pelo que vemos ele tinha uma luta… entre varias.. mas a que para mim faz mais sentindo (não quer dizer que era para ele porque isso não sei). Se uma família não consegue ter perfeita amizade quem conseguirá?!?!
Faz falta, e como sabemos a era dele acabou, e acabou com o tropeço de todos, mas sei que ele nos ensinou a ter força (do Pai), para ultrapassarmos tudo da melhor maneira… pois aquele puxão de orelhas não vai mais ser dado neste local que chamamos de Terra!
Um beijo de força para todos que sentem a falta dele… Mas para quem realmente gostava do meu com-pincha (como nos tratávamos) seria egoísmo de mais querer que ele ficasse cá mais um dia!!
SAUDADES
2009/10/07 às 17:11
um certo neto
Esses puxões de orelha e outros gestos personalizados faziam parte de uma linguagem própria que o Avô desenvolveu com os netos. E nós sabemos que por vezes eles diziam muito mais do que palavras. No fundo, eram manifestações de carinho e preocupação (e algumas vezes de advertência) do Avô.
Fico contente por teres mencionado esta faceta do Avô, porque acho que era um dos laços mais fortes que nos unia a ele. Curiosamente, escrevi um capítulo sobre estes gestos e sobre o seu significado. Vai ter o nome de “Os Sinais Secretos.” A tua história vai ajudar a elaborar o que já está escrito.
Talvez adicione uma entrada aqui no blog só para lembrar essa linguagem secreta…
2009/10/08 às 11:31
Pedrito
Era mais encorajamentos do que puxões de orelha…
Ele ensinou-me a esquecer o passado e deixar que Deus desse a volta por cima…e foi mesmo assim comigo…